Dinheiro seguia em espécie e via 'laranjas'

Valores eram depositados, em Manaus, em contas de "laranjas" residentes em Tabatinga, na fronteira com a Colômbia

Rodrigo Rangel, de O Estado de S. Paulo

15 de maio de 2010 | 22h54

MANAUS - No relatório sobre a operação que desbaratou a base da narcoguerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) na região de Manaus (AM), a Polícia Federal detalha os caminhos do dinheiro do Brasil até o território colombiano.

 

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Quando não seguia em espécie, em mãos de portadores da confiança de José "Tatareto" Sánchez, os valores eram depositados, em Manaus, em contas de "laranjas" residentes em Tabatinga, na fronteira com a Colômbia.

 

O documento da PF chama atenção para a "violação do território brasileiro através da imigração ilegal com a utilização de documentação falsa". Ele também menciona a "transferência da cultura da violência e do narcotráfico para as populações indígenas e ribeirinhas".

 

Tatareto, que a polícia aponta como o chefe da conexão Farc-Brasil, está no País há pelo menos dois anos. É um homem de múltiplas identidades.

 

Documentos falsos

 

Na Colômbia, ele usava dois nomes diferentes. Aqui, mesmo sem falar português, se passava por brasileiro. Graças a uma certidão de nascimento forjada num cartório de Tefé, conseguiu tirar RG e CPF e passou a viver como Daniel Rodrigues Orosco.

 

No papel, o "personagem" que Tatareto assumiu para encobrir sua real identidade é irmão de Carlos Colombiano, outro que se apresenta como brasileiro apesar do sotaque carregado e dos documentos, que a polícia acredita serem falsos.

 

Um terceiro alvo da investigação, o também colombiano Nestor Raúl Rodríguez Sánchez, é prova do fluxo financeiro do esquema e da maneira como as Farc veem no Brasil uma zona livre para agir.

 

Em 2007, quando seguia de Manaus em direção à Colômbia, ele foi preso com o equivalente a US$ 500 mil. O dinheiro, em notas de dólares e euros, estava escondido dentro de uma caixa de som.

 

Não se sabia origem nem destino dos recursos. Havia apenas suspeita de ligação com as Farc porque, ao reconstituir os passos de Nestor antes do flagrante, no sistema de vídeos de uma loja os agentes descobriram que ao comprar o som ele estava em companhia de Mauricio Bravo, irmão de Alfonso Rodríguez Bravo, o "Martín Boyaco", conhecido integrante da guerrilha.

 

Nestor acabou libertado. E estava livre até a semana retrasada, quando foi detido novamente na operação que prendeu Tatareto.

 

Problema novo

 

Nos cenários da PF, o narcotráfico das Farc tomou lugar dos outrora famosos cartéis colombianos. "Será um problema para nós daqui para frente. Como as Farc são hoje cada vez menos uma organização guerrilheira e mais uma organização voltada para o tráfico, a tendência é que esse problema atinja o Brasil de maneira mais intensa nos próximos anos", diz uma fonte com acesso à investigação.

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