Discurso de Cristina Kirchner irrita ruralistas e locaute continua

Após recuo, quando converteu decreto sobre impostos agrícolas em projeto de lei, presidente acusa oposição

Marina Guimarães, da Agência Estado,

19 de junho de 2008 | 09h18

O discurso ofensivo contra os produtores e dirigentes rurais que a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, proferiu na tarde de quarta-feira, 18, diluiu o pequeno efeito positivo que havia conseguido com o gesto de enviar ao Congresso o projeto de lei que aumenta as alíquotas e modifica o sistema de cobrança dos impostos sobre as exportações (chamadas de retenções) do setor agropecuário. As entidades ruralistas ficaram irritadas e decidiram manter o locaute (greve patronal), que estava previsto para terminar à meia-noite, até esta sexta-feira. Os ruralistas, a classe média e os partidos de oposição foram o alvo do duro discurso feito pela presidente argentina, Cristina Kirchner, para 100 mil pessoas que atenderam ao chamado para uma manifestação em favor do governo na Praça de Maio, em Buenos Aires. "Buzinaços, panelaços e piquetes não resolvem nada", esbravejou Cristina, em referência aos protestos que os ruralistas e a classe média das principais cidades do país promovem contra seu governo nos últimos três meses. Embora Cristina tenha chamado ao diálogo, em seu discurso fez fortes referências aos líderes das entidades do campo. Definiu-os como "quatro pessoas às quais ninguém votou, nem escolheu, que decidem quem pode andar pelas rodovias do país e quem não, com intenções de interferir na construção democrática".  Sem repetir a palavra "golpistas", como tem qualificado os produtores rurais desde o início do conflito, há três meses, Cristina insinuou que "os quatro" líderes atuam como desestabilizadores de seu governo. A propaganda oficial veiculada até quarta-feira na televisão era ofensiva contra Mario Llambias, Eduardo Buzzi, Fernando Gionio e Luciano Miguens. Pela quarta vez, em cadeia nacional de rádio e televisão, Cristina usou seu discurso para aprofundar a crise e piorar o clima de divisão no país. O plano de ação dos ruralistas prevê visitas aos parlamentares de suas províncias, no fim de semana, para explicar a problemática do campo e os motivos pelos quais o setor se torna inviável para os pequenos e médios produtores com alíquotas acima de 50% das retenções. Como o projeto enviado pelo governo está "blindado" (à prova de alterações), e sujeito apenas à sua ratificação ou rejeição, os produtores querem convencer os parlamentares da base governista a votar contra a medida. O projeto será debatido no Congresso na próxima segunda-feira. Durante entrevista à imprensa, na noite de quarta, o presidente da Federação Agrária, Eduardo Buzzi, pediu à presidente Cristina Kirchner que tenha mais "respeito" pelos representantes do setor. "É tempo de acabar com as desqualificações e agressões. Não somos desestabilizadores, nem golpistas, nem desabastecedores. Pedimos à presidente mais respeito", disse Buzzi. Ato pró-Cristina A manifestação foi organizada pelo marido da presidente, o ex-presidente Néstor Kirchner, que mobilizou sindicatos, prefeitos dos municípios da Grande Buenos Aires e governadores de províncias de várias regiões do país para uma demonstração de força política, ante os protestos da oposição. Para levar o máximo possível de pessoas à manifestação, Hugo Moyano, secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), declarou uma paralisação geral de trabalhadores para que eles pudessem ir à Praça de Maio. Os bancos fecharam suas portas e funcionários públicos faltaram ao trabalho. Diversas denúncias no transcurso da jornada indicaram que uma parte substancial dos simpatizantes que apoiavam Cristina na frente da Casa Rosada havia recebido compensações financeiras para exibir um temporário fervor kirchnerista. O pagamento para uma família completa de manifestantes teria sido de 500 pesos (US$ 163). Outros militantes, provenientes das empobrecidas províncias do norte do país - onde o clientelismo político faz parte da prática cotidiana -, teriam desembarcado na capital em troca da passagem, o passeio, e um lanche com o tradicional "choripán" (uma versão argentina do cachorro-quente). (Com Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo)

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