Dívida do Equador no BNDES é da Odebrecht, diz Dilma Rousseff

Ameaça de calote é jogada política pré-referendo, diz Lula; Brasil negociará após plebiscito, reforça ministra

Lisandra Paraguassu, O Estado de S. Paulo

25 de setembro de 2008 | 13h47

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, afirmou nesta quinta-feira, 25, que o empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que o presidente do Equador, Rafael Correa, ameaçou suspender o pagamento foi feito para a construtora brasileira Norberto Odebrecht, e não para o governo equatoriano. A disputa jurídica entre a empresa e Quito ganhou contornos de uma crise bilateral entre Brasil e Equador, depois que o presidente declarou que analisava a possibilidade de não pagar os US$ 243 milhões concedido banco.   Veja também: Expulsão é jogada do Equador, diz Lula Equador expulsa Odebrecht e ameaça não pagar o BNDES Ouça relato do enviado Roberto Lameirinhas    A quatro dias de um referendo no qual pretende aprovar o projeto de Constituição, crucial para sua proposta de "refundar o Equador", Correa declarou que o pagamento do empréstimo não seria justo, uma vez que o crédito financiaria o projeto da Usina Hidrelétrica de San Francisco, construída pela Odebrecht, que apresenta falhas estruturais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a ameaça seria uma jogada política eleitoral. "No Equador, há eleições domingo. Vamos deixar a bola passar para resolver esse problema. Esse é o papel do Brasil", disse Lula, em referência ao referendo sobre a nova Constituição equatoriana. "Tenho certeza de que Correa vai me telefonar. Por enquanto, não quero ficar na base da especulação, porque tratar de relações entre Estados na base da especulação sempre acaba em bobagem."   A tática do governo brasileiro está sendo a de não alimentar o conflito e ressaltar o papel que o Brasil tem a cumprir no desenvolvimento das economias menores da América do Sul, como a equatoriana. A ministra da Casa Civil reforçou que o Brasil pretende esperar as eleições no Equador para resolver a questão. Dilma acredita que haverá uma gestão "calma e tranqüila" no conflito. Com relação à ameaça do Equador de dar um calote no BNDES, Lula respondeu na quarta: "A empresa (Odebrechet) vai arcar com a dívida com o BNDES. A gente não pode criar nenhum trauma." Segundo ele, o problema será resolvido pelo diálogo.   Correa expulsou a empresa do Equador, ordenou que o Estado equatoriano assumisse todas as operações da Odebrecht no país, determinou que forças militares ocupassem as instalações da companhia, além do congelamento de todos os seus ativos. Dois diretores da empresa estão hospedados na Embaixada do Brasil em Quito, cujos funcionários mantêm total silêncio sobre o caso. Outros dois funcionários da empresa, também proibidos de deixar o país, segundo nota oficial do governo de Quito divulgada na terça-feira, já voltaram para o Brasil.   Não é a primeira vez que Correa anuncia intenção de deixar de pagar compromissos da dívida externa equatoriana. Depois de vencer a eleição presidencial de 2006, ele ameaçou não pagar parcelas devidas ao FMI e ao Banco Mundial e afirmou que poderia abandonar a garantia do Estado de honrar os bônus da dívida equatoriana. Essas pendências, no entanto, acabaram resolvidas por meio de acordos.   "Se o governo levar adiante a intenção de dar calote no BNDES do Brasil, Correa estará causando um dano irreversível ao país, uma vez que isso seria um atentado claro contra a segurança jurídica e nenhum investidor, por mais ousado que seja, arriscará investir seu capital aqui", disse ao Estado o especialista em Economia da Universidade Católica de Quito Javier Lozada. "Há um ditado popular equatoriano que diz: 'Da ameaça ao fato, há um longo caminho.' Nem (Hugo) Chávez foi tão longe", acrescentou Lozada.   (Com Roberto Lameirinhas, enviado especial, Tânia Monteiro e Nalu Fernandes de O Estado de S. Paulo)

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