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Dividida, Honduras inicia campanha eleitoral

Governo interino ignora pressão para reempossar Zelaya e garante estar preparado para sanções economias

Reuters e Efe,

31 de agosto de 2009 | 17h52

Honduras iniciou nesta segunda-feira, 31, a campanha para a eleição presidencial de novembro, com uma população dividida por causa do golpe de Estado de junho. O governo interino do país ignora a pressão internacional para reempossar Manuel Zelaya na presidência e garante estar preparado para eventuais sanções economias e diplomáticas caso transfira o poder, em janeiro, a um novo presidente eleito no pleito de 29 de novembro.

 

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Num pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão, o presidente do TSE, Saúl Escobar, pediu aos hondurenhos que façam das eleições gerais "uma festa cívica" e ajudem "a fortalecer a cultura política e eleitoral do país". Escobar também recomendou aos candidatos a presidente, prefeito e deputado que promovam "uma campanha política com propostas eleitorais" e que motive "a população a comparecer em massa às urnas".

 

Segundo o TSE, a campanha terminará em 24 de novembro. Durante esse período, os candidatos não poderão promover a abstenção nem receber contribuições anônimas ou de Governos estrangeiros. Zelaya, que foi derrubado por um golpe de Estado e expulso do país pelos militares em 28 de junho, fez um apelo para que a comunidade internacional não reconheça os resultados das eleições, convocadas quando ainda estava no poder, em 28 de maio.

 

A eleição já estava marcada antes do golpe, mas grande parte da comunidade internacional já disse que não reconhecerá seu resultado. Apesar disso, rádios e TVs começaram a divulgar mensagens conclamando o eleitorado às urnas, e nas ruas já há bandeiras vermelhas e brancas do partido governista e azuis e brancas do principal grupo oposicionista. O esquerdista Zelaya foi deposto e exilado por causa das suas manobras para mudar a Constituição e buscar um novo mandato.

 

Os principais candidatos à presidência são Porfírio Lobo, empresário ruralista do oposicionista Partido Nacional, e Elvin Santos, engenheiro oriundo de uma família abastada, ligado ao Partido Liberal (governista). Lobo, derrotado por Zelaya na última eleição, aparece com 42% das intenções de voto na última pesquisa CID Gallup, contra 37% de Santos.

 

Os dois candidatos prometem um governo de unidade para levar a paz ao país, combater o desemprego e melhorar a segurança pública. Mas simpatizantes de Zelaya ainda realizam manifestações diárias nas ruas de Tegucigalpa, despertando o temor de violência durante a campanha.  "Este é um processo particular: nós estamos oferecendo mudar este país e levá-lo sobre um caminho de desenvolvimento, tranquilidade, dignidade para benefício de todo o povo", disse Lobo em um comício.

 

Os outros candidatos ao cargo são Felícito Ávila, do Partido da Democracia Cristã; Bernard Martínez, do Inovação e Unidade-Social-Democrata; César Ham, do Unificação Democrática (esquerda), e o sindicalista e independente Carlos Reyes.

 

Nesta segunda-feira, 31, os seguidores de Zelaya realizam uma nova manifestação pedindo a restituição do presidente derrubado e que a população também não reconheça o processo eleitoral.

 

EUA

 

Além disso, os Estados Unidos preveem anunciar nos próximos dias sua decisão sobre se a derrubada do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, ocorreu por meio de um golpe militar. Caso os EUA decidam que sua postura é de que houve golpe, o país cortará milhões de dólares em ajuda humanitária a Honduras.

Um funcionário do Departamento de Estado americano relatou que esse anúncio pode ser feito entre terça e quarta-feira, o que coincidiria com a visita de quatro dias que Zelaya fará a Washington.

Depois da saída de Zelaya, os EUA suspenderam a ajuda direta ao Governo de fato de Honduras, incluindo a assistência militar, cancelaram todas as operações dos 600 soldados destacados na base de Soto Cano e condicionou o congelamento da ajuda restante a um estudo jurídico do Departamento de Estado sobre a queda do presidente deposto.

Segundo uma lei americana, "nenhuma assistência pode ser fornecida a Governos de um país se o presidente devidamente eleito dessa nação tiver sido deposto por um decreto ou um golpe militar".

A recomendação recebida pela secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, é declarar que a derrubada de Zelaya foi um golpe militar, mas ela ainda está de férias e o Governo americano preferiu esperar para dar espaço aos últimos esforços negociadores da Organização dos Estados Americanos (OEA).  Se Hillary tomar tal decisão, Honduras pararia de receber a ajuda da Millennium Challenge Corporation (MCC), que assinou em 2005 um convênio de cinco anos com Tegucigalpa no valor de US$ 215 milhões.

Segundo seu site, a MCC suspendeu qualquer atividade em Honduras que não estivesse em andamento antes de 28 de junho, data da derrubada de Zelaya. De acordo com essa fonte, até o momento, a MCC desembolsou US$ 80,3 milhões em Honduras sob esse convênio, cujos dois principais objetivos são aumentar a produtividade e as habilidades empresariais de camponeses e reduzir os custos de transporte entre os centros de produção e os mercados nacionais, regionais e globais.

O Departamento de Estado ainda não agendou uma reunião com Zelaya, que já está em Washington, mas a fonte disse que esse encontro poderia ocorrer na quarta-feira ou na quinta-feira. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, ainda está de férias, mas poderia voltar a Washington na quinta-feira, afirmou.

 

O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, pretende iniciar outra rodada de reuniões em Washington para aumentar a pressão da comunidade internacional a favor de seu restabelecimento no poder. O líder hondurenho terá hoje apenas reuniões internas na embaixada de seu país, segundo explicaram à Agência Efe fontes da representação diplomática de Honduras nos EUA.

 

As primeiras reuniões importantes de Zelaya acontecem nesta terça-feira à tarde na sede da Organização dos Estados Americanos (OEA), onde terá um encontro privado com o secretário-geral, José Miguel Insulza, e depois, também a portas fechadas, conversará com membros do Conselho Permanente da entidade.

 

Por fim, já à noite, o presidente deposto hondurenho falará com a imprensa e fará sua avaliação sobre o estado das negociações com o Governo do presidente de fato em Honduras, Roberto Micheletti, e de suas conversas com Insulza e os representantes dos 33 países-membros da OEA.

Também deve se reunir com líderes de ONGs, defensores dos direitos humanos, e representantes de centros de análise política. O propósito é "continuar analisando respostas à crise política (em Honduras) e buscar o restabelecimento da ordem constitucional", disse à Agência Efe uma fonte diplomática, que pediu o anonimato.

Acrescentou que Zelaya convocará uma entrevista coletiva na terça-feira à tarde na sede da OEA para avaliar o andamento das negociações com o Governo de fato em Honduras e resumir os resultados de suas reuniões em Washington.

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