‘Ela comprou as brigas erradas’, diz estudioso da era Kirchner

Para o ensaísta Martín Rodríguez, Cristina perdeu o rumo após se reeleger com 54% dos votos em 2011

Rodrigo Cavalheiro, O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2015 | 21h46

BUENOS AIRES - Cristina Kirchner perdeu o apoio incondicional do escritor Martín Rodríguez em seu segundo mandato, quando “afastou-se da base sindical” acreditando que os 54% obtidos na reeleição presidencial de 2011 eram “fruto só de seu carisma”.

Rodríguez ficou conhecido ao escrever no ano passado o livro Orden y Progresismo, uma espécie de biografia do kirchnerismo, do qual foi entusiasta. “Cristina chegou a um ponto em que pensou: ‘Se há conflito há êxito’. E há uma parcela da sociedade que quer consumo, alguma tranquilidade. Ela deveria ter se guardado para as brigas que realmente valem”, avalia o escritor que estudou sociologia e transita entre a poesia e o jornalismo, publicando ensaios no Le Monde Diplomatique e em meios argentinos.

O recente confronto com o Judiciário não foi produtivo para o governo. A Justiça, que “fazia vistas grossas” enquanto não era incomodada, começou a agir. “Agora há um caso de corrupção atrás do outro”, diz ele.

Na avaliação de Rodríguez, a polarização de que falam os especialistas ocorre especificamente na classe média. “A divisão é entre grupos progressistas dos setores médios identificados com o kirchnerismo e outros pressionados pela inflação. Embora não seja a classe média que numericamente decida a eleição, é ela que pauta as discussões, o que sai nos jornais”, avalia o morador de um apartamento de classe média em Palermo em que livros e CDs dividem espaço com os dinossauros de brinquedo do filho.

Admirador de Néstor, um político “mais complexo que Cristina”, Rodríguez não vê um futuro para o kirchnerismo da maneira como ele é conhecido, com uma essência na regulação de conflitos, sem os quais não se sustenta. Segundo o especialista na era K, não há um sucessor natural para Cristina. Daniel Scioli, governador de Buenos Aires, é uma versão que ele considera boa para aliviar a beligerância do movimento, mas por isso mesmo é considerado um conservador dentro do peronismo. “Cristina não pode, como fez Lula no Brasil, dizer: ‘Meu herdeiro é tal’. Não há um político que encarne isso”, diz. 

Ele lembra de Sergio Massa, homem de confiança de Néstor que desertou quando Cristina decidiu que podia “governar sem apoios”, após ser reeleita. “Ela se distanciou dos sindicatos como se não devesse nada a ninguém. Em 2012, Cristina perdeu o controle e houve panelaços multitudinários”, lembra o filho de uma guerrilheira montonera, que enfrenta problemas na família por ter moderado seu kirchnerismo. “Ela apostou na juventude kirchnerista exclusivamente. Mas o kirchnerismo é um movimento sem um partido, e isso é um problema para o futuro.”

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