Eleição municipal no Chile pode determinar pleito presidencial

As eleições municipais do Chile, a serem realizadas no domingo, servirão como um teste antecipado para a capacidade da atual coalizão governista de continuar no poder no pleito presidencial de 2009 enquanto tenta livrar o país da atual crise financeira mundial. As linhas ideológicas que sempre dividiram os chilenos entre a direita e a esquerda começaram a perder nitidez depois que a Concertación -- a coalizão governista de partidos de centro-esquerda presente no poder há 18 anos -- viu-se atingida por desavenças internas e até mesmo deserções. Com as eleições presidenciais a menos de um ano de distância, os governistas ainda não escolheram seu candidato. O bilionário centro-direitista Sebastián Pinera, que perdeu o segundo turno do pleito de 2006 para Michelle Bachelet, é atualmente o único candidato da oposição. "Pela primeira vez em muito tempo, haverá uma disputa apertada. As pessoas estão cansadas da Concertación", disse Enrique Cisternas, 46, executivo do setor bancário. Os chilenos elogiam o governo por obras públicas como auto-estradas modernas e por políticas fiscais que ajudaram a economia a tornar-se uma das mais bem-sucedidas dentre as dos países emergentes. A economia chilena apresentou índices recorde de crescimento nos últimos anos, em meio à disparada de seu principal produto de exportação, o cobre. Mas os preços do metal vermelho despencaram nas últimas semanas diante de temores sobre uma desaceleração da economia global. Ao mesmo tempo, o peso caiu 26 por cento contra o dólar neste ano. Alguns temem que o governo começa a dar sinais de afrouxamento após tantos anos no poder, e tem havido boatos sobre casos de corrupção. Um grupo de políticos já se afastou da coalizão. Uma taxa de inflação que atinge seu maior patamar dos últimos 14 anos e a possibilidade de a criminalidade estar em alta também colocam pressão sobre o partido do governo. O Chile possui um sistema multipartidário, mas a maior parte das legendas estão unidas sob a Aliança (de direita) e a Concertación (de esquerda). Essa divisão, estabelecida quando da volta da democracia ao país, em 1990, depois de 17 anos da ditadura de Augusto Pinochet, permaneceu sempre inalterada. No domingo, os eleitores vão escolher 345 prefeitos e mais de 2.000 vereadores em 15 regiões políticas. CANDIDATO DO PRÓXIMO ANO O resultado do pleito mostrará qual dos quatro principais partidos da Concertación é o mais forte e qual escolherá o candidato presidencial de 2009. "As eleições municipais, que ocorrem um ano antes das eleições presidenciais, representam a balança por meio da qual os partidos vão se pesar", disse Fabian Pressacco, diretor de ciências políticas da Universidade Alberto Hurtado, em Santiago. Entre os candidatos da coalizão governista incluem-se dois ex-presidentes -- Ricardo Lagos e Eduardo Frei -- bem como a ex-ministra das Relações Exteriores Soledad Alvear e José Miguel Insulza, atual secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA). Francisco Vidal, porta-voz do governo, previu que a Concertación sairá vencedora da eleição de domingo, afirmando que o Chile é um país fundamentalmente contrário à direita. "A direita não entra nesta casa (a sede do governo) por meio do voto popular há 50 anos. E, 35 anos atrás, eles entraram aqui por meio das balas", afirmou Vidal, referindo-se ao golpe de 1973 contra o então presidente esquerdista Salvador Allende. Uma pesquisa divulgada nesta semana pelo jornal chileno El Mercurio, de grande prestígio, previu que os candidatos esquerdistas ficarão com 45 por cento dos votos no domingo e os direitistas, com 41. Os votos restantes seriam divididos entre o Partido Comunista e os candidatos independentes que se afastaram da coalizão governista. (Reportagem de Pav Jordan, Rodrigo Martinez e Antonio de la Jara)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.