Eleições regionais na Venezuela testam força do chavismo

Se oposição ganhar Estados significativos, será primeiro passo para conquista de parcela maior no poder

Ruth Costas, enviada especial, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 20h50

Os venezuelanos vão às urnas neste domingo, 22, para eleger 22 governadores, 328 prefeitos e 233 legisladores regionais. Mais que uma simples escolha de líderes locais, porém, essas eleições acabaram se convertendo numa encruzilhada política tanto para o governo quanto para os opositores do governo de Hugo Chávez. Se a oposição conseguir conquistar Estados significativos, estará dando um primeiro passo para obter uma parcela mais significativa do poder num país em que Chávez controla o Legislativo, indicou a maior parte dos magistrados do Judiciário e, nas últimas eleições regionais, em 2004, conquistou 20 dos 22 Estados.  Veja também:Imagens da Dinastia Chávez Entenda: eleições podem alterar mapa político do país  Cronologia do processo eleitoral venezuelano  A tentativa de Chávez de controlar a imprensa   Se o partido de Chávez obtiver vitórias significativas - opção menos provável, segundo analistas, mas que deve ser seriamente considerada -, o presidente diz que pretende "aprofundar" a sua revolução bolivariana. Alguns de seus aliados indicam que Chávez até poderia relançar, na forma de emenda constitucional, a proposta que lhe permitiria ser reeleito indefinidamente, rejeitada em referendo no ano passado por 50,6% dos venezuelanos. Até a semana passada (quando o governo venezuelano proibiu a sua divulgação), as pesquisas favoreciam o primeiro cenário. De acordo com o instituto Hinterlaces, por exemplo, a oposição, que em 2004 venceu em apenas dois Estados, teria boas chances de conquistar de seis a oito governos estaduais. Dissidentes (ex-chavistas que se recusaram a ingressar no Partido Socialista Unidos da Venezuela, PSUV) poderiam ganhar em outros dois. E o restante - de 10 a 12 Estados - permaneceria com o PSUV, do presidente. Peso dos Estados "O que importa, porém, não é a quantidade dos Estados e sim seu peso econômico e populacional", explica o cientista político Sadio Garavini. É aí que se entende por que a oposição acredita que pode avançar tanto nessas eleições. Entre os governos locais que os adversários de Chávez podem vencer está Carabobo, o maior pólo industrial do país; Zulia, que produz 80% do petróleo venezuelano e de onde saem 80% de todos os produtos agropecuários nacionais consumidos no país; e Caracas, a capital. Juntos, eles representam mais de 50% da população da Venezuela. Outra votação importante será em Barinas, Estado natal do presidente, governado nos últimos oito anos pelo pai dele, Hugo de Los Reyes Chávez. Lá, o candidato governista, Adán Chávez, irmão do presidente e ex-ministro da Educação, está empatado com o dissidente Júlio César Reyes. Uma derrota na região teria um peso simbólico importante para Chávez.  Avanço da Oposição O analista político Ricardo Sucre, da Universidade Central da Venezuela, explica que o que abriu a possibilidade para os adversários de Chávez avançarem foram, basicamente, três fatores. O primeiro seria um amadurecimento da oposição, que abandonou práticas como a conspiração e o boicote às eleições. O segundo, a radicalização dos discursos do presidente - ou sua defesa incondicional do socialismo e seu estilo agressivo, nem sempre bem vistos pela população. E o último, uma profunda deterioração da condição de vida dos venezuelanos nessa década de gestão Chávez. A violência atingiu níveis altíssimos (13 mil homicídios registrados no ano passado, contra 6 mil do primeiro ano de Chávez, em 1999) e políticas econômicas pouco eficientes impulsionaram a inflação e inibiram a produção interna, causando a escassez esporádica de alimentos básicos como carne, leite, açúcar e café. Isso, num momento histórico especialmente favorável para o país, por causa da alta do petróleo.  Segundo algumas pesquisas, há três anos a porcentagem dos chavistas que estavam incondicionalmente ao lado do presidente (o chamado chavismo duro) era de cerca de 30%. Hoje rondaria os 15%. E não é difícil perceber a mudança em conversas nas ruas de grandes cidades como Caracas ou Maracaibo. "Gosto dos projetos que Chávez implementou, mas não me considero chavista porque acredito que o presidente está passando dos limites com as ameaças", confessou ao Estado a assessora de um dos candidatos do governo a um cargo de peso nessas eleições. "É claro que não podemos subestimar a capacidade do presidente de atrair votos, porque ele de fato tem empatia com boa parte da população e a máquina estatal a seu lado", diz Sucre. "Mas a grande novidade desta eleição é a chance de a oposição crescer ao menos um pouco no cenário político venezuelano."

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