Em carta, refém das Farc diz que vive 'como morta'; mãe reage

Ex-candidata à Presidência da Colômbia relata situações precárias dos seqüestrados; mãe reclama de divulgação

01 de dezembro de 2007 | 11h57

A edição do jornal El Tiempo deste sábado, 1, trouxe trechos da carta da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt para a mãe, em que ela relata a situação precária em que vivem os reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). O texto faz parte das provas encontradas pelo Exército colombiano com os três guerrilheiros presos na quinta-feira e entregues aos familiares dos seqüestrados.     Yolanda Pulecio, mãe de Ingrid, reagiu indignada à publicação da carta pela imprensa e anunciou que processará a promotoria que deixou vazar uma mensagem "íntima" e "para a família". O procurador-geral Mario Iguarán se mostrou surpreendido com a divulgação e  pediu desculpas à mãe e à família. Yolanda viajou a Caracas neste sábado para falar com o presidente venezuelano, Hugo Chávez, que chegou a intermediar negociações com as Farc.   Veja também: 'Aliviado', filho teme pela saúde de Ingrid Assista às imagens de Betancourt e outros reféns (BBC)  Especial: Tensão na América do Sul    "Aqui vivemos como mortos. Estou mal fisicamente. Não consigo comer, estou sem apetite e meus cabelos estão caindo em grande quantidade. (...) Este é um momento muito duro para mim. Me pedem provas de sobrevivência à queima-roupa e aqui estou, escrevendo para você com a minha alma estendida neste papel. Não tenho vontade para nada. Creio que isto é a única coisa que é bom, já que não tenho vontades porque aqui nesta selva a única resposta que temos é 'não'. É melhor, então, não querer nada para ficar livre pelo menos de desejos. Há 3 anos eu peço um dicionário para ler, aprender algo, manter a curiosidade intelectual viva. Estou esperando que ao menos por compaixão me facilitem um, mas é melhor não pensar nisso", diz a refém.   Em pleno desconsolo, a carta escrita a mão por Betancourt tampouco treme quando escreve sobre os momentos em que está detida pelas Farc. "A vida aqui não é vida, é um desperdício de tempo. Estou sobrevivendo em uma rede estendida, coberta por um mosquiteiro e com um toldo em cima, com o qual posso pensar que tenho uma casa. Tenho uma prateleira que coloco minhas coisas, quer dizer, minha roupa e a Bíblia, tudo pronto para sair correndo. Aqui nada é nosso, nada dura, a incerteza e a precariedade são a única constante. Em qualquer momento dão ordens para guardarmos tudo e dormirmos em qualquer buraco, estendidos em qualquer lugar, como qualquer animal."   "As mãos suam e se enevoar o pensamento, acabo fazendo as coisas duas vezes mais do que o normal. As caminhadas são um calvário porque meu equipamento é muito pesado e não posso com ele. (...) Tudo é estressante, se perder as minhas coisas ou me tirá-las. O único que tenho conseguido manter é um casaco, que tem sido uma bênção, porque as noites são geladas e não tenho outra coisa para me proteger".   "Antes tomava banho no rio. Como sou a única mulher do grupo, o faço praticamente vestida: bermuda, camiseta e botas. Antes, eu gostava de nadar no rio, hoje não tenho sequer fôlego para isso. Estou fraca, trêmula, pareço um gato aproximando-se da água." Betancourt conta ainda que fala o mês possível para evitar criar problemas. "A presença de uma mulher no meio de prisioneiros que estão detidos há 8, 10 anos, é um problema."   As provas de que os reféns estão vivos foram obtidas pelo Exército durante uma operação militar em Bogotá, na qual foram capturados três rebeldes cuja missão seria, aparentemente, enviar ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, vídeos e cartas como prova da vida dos seqüestrados.   Segundo a BBC, quatro dos cinco vídeos, incluindo o que registra imagens de Betancourt - que foi seqüestrada em fevereiro de 2002 - têm data de gravação correspondente aos dias 23 e 24 de outubro deste ano, segundo as autoridades. O comunicado afirma que o vídeo mostra imagens de Mark Gonçalves, Kein Stambler e Thomas Howes, trabalhadores americanos também reféns das Farc. Outros mostram integrantes do exército colombiano, também em poder da guerrilha.   A ex-candidata presidencial aparece sentada, com as mãos sobre os joelhos, abatida e olhando para o chão. As Farc não divulgavam provas de vida de Betancourt há mais de quatro anos, desde 30 de agosto de 2003.   Texto ampliado às 20h40

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