Em favela reduto de Chávez, moradores recordam o líder

Juan Carlos Villamizar, morador de uma favela de Caracas, deu adeus a Hugo Chávez na sexta-feira, atribuindo ao falecido líder venezuelano o mérito por salvar sua vida, no mesmo bairro pobre onde Chávez começou a ascender politicamente.

TERRY WADE E PATRICIA VÉLEZ, Reuters

09 de março de 2013 | 11h24

Um membro devoto nos quadros socialistas na comunidade "23 de enero", um morro onde Chávez deu início à sua tentativa de golpe de Estado em 1992, Villamizar diz que graças a uma intervenção de última hora do gabinete do presidente, ele foi colocado em um avião para Cuba, onde foi submetido a uma delicada cirurgia para corrigir seu pescoço quebrado. Foi uma das várias vezes em que seus caminhos se cruzaram.

Ambos foram submetidos a operações complexas em Havana, depois de votarem na mesma seção eleitoral, em outubro, quando Chávez foi reeleito para mais um mandato de seis anos. Ambos entraram em coma. Um sobreviveu. O outro morreu. Chávez tinha 58 anos. Villamizar está prestes a completar 59.

Nas urnas em outubro, Villamizar esbarrou em um capitão do Exército, seu conhecido, e lhe contou que estava esperando havia um ano por uma vaga em um hospital público na Venezuela para corrigir seu pescoço, quebrado em uma queda.

"O capitão pegou o telefone e ligou para o palácio presidencial .... Uma semana e meia depois eu estava a caminho de Cuba", disse com alegria na sexta-feira enquanto assistia a uma transmissão ao vivo do funeral de estado de Chávez, do qual tomaram parte dezenas de chefes de Estado.

Villamizar afirmou que a parceria Chávez com a Cuba comunista ajudou a Venezuela a dar passos importantes na saúde e educação, e ele prestava homenagem à profunda ligação emocional do líder socialista com os pobres.

"Não há ninguém como Chávez", disse Villamizar. "Nós sempre fomos um país oprimido, mas ele mostrou ao povo muito carinho."

Villamizar se recorda de como abraçou Chávez e apertou suas mãos na mesma seção eleitoral na favela "23 de enero" durante uma eleição em 2006. O momento foi gravado pela TV venezuelana, e Villamizar mostrou a gravação na sexta-feira, no seu computador de fabricação coreana, em seu modesto apartamento.

Chávez formou grupos comunitários para executar todo tipo de atividade, desde programas de alimentação a postos de saúde em bairros pobres como este, ignorado durante décadas pela pequena elite política da Venezuela.

Os grupos se replicaram por todo o país e desenvolveram laços estreitos com o governo, tornando-se a base de movimento político de Chávez durante seus 14 anos no poder.

Eles agora irão trabalhar para o sucessor escolhido por Chávez, o então vice-presidente Nicolás Maduro, que é o favorito para vencer o candidato da oposição centrista, Henrique Capriles, em uma eleição presidencial nas próximas semanas.

Maduro vai beneficiar-se da comoção após a morte de Chávez na terça-feira, embora ele não tenha o seu carisma.

A verve de Chávez, seu olhar penetrante, senso de humor e seu estilo muitas vezes antagônico cativaram as massas, mesmo repelindo os ricos.

"Ele era magnético. Vê-lo falar na TV era como assistir a um filme de aventura que se estendia por horas", disse Villamizar.

Ele e sua esposa, Milagros Pérez, eram ativos na esquerda antes do grandiloquente e quixotesco Chávez vencer sua primeira eleição presidencial, em 1998. Seus filhos adultos também são parte dos quadros comunitários. Fotos de Chávez estão penduradas nas paredes da sala de estar, misturadas às da família. Em uma praça próxima, um mural com base na Última Ceia mostra Cristo ladeado por Marx, Chávez, Fidel Castro e Ernesto "Che" Guevara, o médico argentino que se tornou um herói da revolução cubana.

"Para nós, Chávez e Che são o mesmo. E agora, Maduro", disse Alejandro Espinosa, de 60 anos, sentado sob um outro mural.

TÚMULO EM CONSTRUÇÃO

A poucas quadras está um majestoso edifício antigo que já serviu como quartel-general do Exército. Chávez usou o prédio com torres, que fica nas colinas perto do palácio presidencial, como seu centro de comando, quando tentou derrubar o presidente Carlos Andrés Pérez, partidário do livre-mercado, em 1992.

No portão da frente, uma tocha de prata comemora o levante, sob uma placa que diz: "O nascimento da esperança."

No interior, trabalhadores constroem rapidamente um túmulo para Chávez, onde as autoridades prometeram para exibir seu corpo embalsamado "para a eternidade."

O edifício tem vista para as colinas verdejantes de Caracas e um campo de beisebol, esporte favorito de Chávez.

Na Estrada que leva ao túmulo de Chávez, Nelson Santana, 60, estava pintando frases em uma parede em letras vermelhas, onde se lia "Até sempre comandante" e "Chávez vive!" "Estamos muito felizes que ele esteja de volta para um bairro combativo como este. Ele estará conosco em nossas ações", disse ele. "Eu o sinto aqui comigo enquanto estou pintando. Chávez não morreu em 5 de março. Ele se multiplicou um milhão de vezes."

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