Em visita ao Brasil, Lugo pressiona por renegociação de Itaipu

Candidato à presidência do Paraguai diz estar disposto a batalhar por mudanças no tratado da hidrelétrica

Reuters,

01 de abril de 2008 | 21h14

O candidato à presidência do Paraguai Fernando Lugo encontra-se com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na tarde desta quarta-feira, 2, em Brasília, para discutir, entre outros assuntos, a renegociação do tratado da hidrelétrica binacional de Itaipu, no rio Paraná. A questão energética se tornou um dos principais temas da campanha eleitoral paraguaia e a discussão sobre a revisão do tratado de Itaipu colocou o Brasil no centro das eleições presidenciais do país.  Veja também:Bolívia condena propaganda eleitoral de Oviedo no ParaguaiCandidato paraguaio comemora ser 'dor de cabeça' para Brasil "A política é tornar possível o que muita gente pensa que é impossível", disse o candidato paraguaio. "Também pensavam que era impossível que o canal do Panamá pudesse ser renegociado antes do tempo [entre Panamá e EUA]. Achamos e abrigamos a esperança de que a racionalidade deve primar e o tratado deve ser justo", acrescentou ele. "O presidente Lula disse que seu país não queria crescer à custa da miséria dos vizinhos mais pobres. E é isso que queremos falar, com muito respeito, com o governo brasileiro a partir de 21 de abril", afirmou Ricardo Canese, especialista em temas energéticos do movimento esquerdista paraguaio Tekojojá. A revisão do pacto firmado em 1973 é o principal item da plataforma eleitoral de Lugo, ex-bispo católico e líder nas pesquisas para a eleição de 20 de abril, num momento em que a região se prepara para o risco de um déficit energético. Lugo tem como foco de campanha a reclamação de um preço melhor pela energia que o Paraguai vende a seu principal sócio comercial.  Brasil e Paraguai se associaram para construir Itaipu há mais de três décadas, quando havia regimes militares em ambos os países. Foi um investimento de US$ 12,2 bilhões, financiado principalmente com créditos externos. O tratado estabelece que cada país é dono de metade da energia produzida (uma média de 92 mil gigawatts-hora por ano), e que o Paraguai deve vender o excedente ao Brasil.  Os assessores de Lugo argumentam que a energia deveria ter um preço bem mais elevado que o atual, e que o dinheiro arrecadado poderia financiar obras sociais e de infra-estrutura no Paraguai.  "O que buscamos é um preço que contemple uma mera equação de mercado. E no caso de Itaipu nem sequer nos aproximamos", Canese. Segundo ele, o critério utilizado para o cálculo de uma tarifa justa deveria ser o do custo de substituição, tanto no caso de Itaipu quanto no de Yacyretá, hidrelétrica binacional Paraguai-Argentina.  "Sem a energia hidrelétrica paraguaia, Brasil e Argentina teriam de queimar 90 milhões de barris de petróleo por ano. A um preço médio de US$ 100 por barril, estaríamos falando em US$ 9 bilhões", disse. De acordo com Canese, o valor que Brasil e Argentina pagam pela energia paraguaia é de cerca de US$ 400 milhões por ano.  A coalizão centro-esquerdista que apóia Lugo também considera que o Paraguai deveria poder vender sua energia a terceiros, embora para isso precise investir milhões de dólares em linhas de distribuição hoje inexistentes.  Resposta do Brasil O Brasil por sua vez diz que o valor calculado no tratado é correto porque assegura à binacional o cumprimento de seus compromissos financeiros. A central acumula uma dívida de quase US$ 19 bilhões com a estatal brasileira Eletrobrás, que vence em 2023.  Além disso, a direção brasileira da Itaipu considera que a proposta do candidato paraguaio está fora de lugar porque o valor estipulado se encontra de acordo com os preços de mercado no país, exceto no caso de usinas que já amortizaram os investimentos realizados.  Segundo dados do lado brasileiro de Itaipu, o custo da energia vendida pelo Paraguai ao Brasil é de US$ 45,3 por megawatt-hora. Itaipu gera cerca de 20 por cento da energia consumida no Brasil, a maior parte nas regiões Sul e Sudeste.  "O Brasil firmou um tratado que assegura absoluta igualdade de direitos. O projeto foi um excelente negócio para o Paraguai, pois lhe garantiu auto-suficiência energética pelos próximos 50 anos e rendimentos anuais de 350 milhões de dólares em royalties", diz um documento da binacional.

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