ENTREVISTA-Disputa por bens expropriados paira sobre Cuba

Uma batalha de bilhões de dólares emtorno das propriedades confiscadas pela Revolução Cubana, de1959, ganhou novas dimensões nesta semana depois da renúncia dolíder Fidel Castro, acredita um importante advogado de exiladoscubanos. "Historicamente, isso representa uma mudança e tanto",disse à Reuters o advogado Nicolas Gutierrez, de Miami. Gutierrez trata de quase 400 ações impetradas contra ogoverno de Cuba, em sua maioria em nome de exilados quedeixaram sua pátria às pressas e que tiveram suas propriedadesconfiscadas pelos seguidores de Fidel, os quais tomaram o poderquase 50 anos atrás. A renúncia de Fidel nesta semana alimentou esperanças deque os processos possam ser finalmente resolvidos, disseGutierrez em entrevista concedida na quarta-feira. "Pode serque isso demore anos ainda, mas estamos mais perto do fim." O advogado diz que cidadãos e empresas norte-americanosperderam cerca de 8 bilhões de dólares em propriedadesconfiscadas em Cuba, segundo valores atualizados. Atualmente,há 5.911 ações pendentes junto à Comissão de Ações deIndenização no Exterior, um órgão ligado ao governonorte-americano. O montante das propriedades nacionalizadas pelos cubanos,no entanto, excede em muito esse valor, podendo chegar, segundoGutierrez, a 200 bilhões de dólares. Cerca de um quarto de seus clientes contratou o advogadodepois de Fidel ter entregado o poder, então temporariamente, aRaúl Castro, irmão dele, quando se submeteu a uma cirurgia nointestino, em julho de 2006. E Gutierrez espera que o número de ações aumente quandohouver sinais claros de uma abertura democratizante na ilhacaribenha. "Algum dia, isso vai explodir e se transformar em umbolo imenso de ações", afirmou o advogado. Segundo Gutierrez, apenas seis novos clientes procuraram-nodesde terça-feira, quando Fidel, 81, anunciou que não pretendemais regressar ao poder, indicando, no entanto, que poucasmudanças ocorrerão no país agora comandado por Raúl. AMEAÇA DE EXPULSÃO A ameaça de que os exilados regressem a Cuba para exigirsuas propriedades confiscadas alimenta há muito tempo o apoioao governo Fidel entre os moradores da ilha, que se preocupamcom a possibilidade de serem expulsos das casas que ocupam hádécadas. Gutierrez, no entanto, afirmou que muitos exilados quereconstruíram suas vidas em Miami, e em outros lugares, queriamser indenizados e não retomar a posse dos imóveis. O advogadoacrescentou que soluções podem ser encontradas após o final docomunismo, como já aconteceu no Leste Europeu. "Ninguém pode ser expulso de uma casa mesmo que essa casanão seja dele. O direito de posse precisa ser respeitado",disse. O advogado, 43, filho de exilados cubanos, nasceu na CostaRica. Ele nunca esteve em Cuba, mas diz que sua família possuíacerca de 40.470 hectares de terra na ilha, incluindo duasfábricas de açúcar localizadas em Cienfuegos, no sudeste dopaís, antes de ser expropriada pelo governo revolucionário. "Os comunistas mantêm registros detalhados sobre aspropriedades que roubaram do povo cubano", disse. "A gente imaginaria que eles teriam destruído tudo,queimado tudo, esse tipo de coisa. Mas eles estão quase que nosdando mais corda para que, um dia afinal, nós os enforquemos."

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