Equador deve aprovar Constituição de Correa em referendo

O "sim" deve vencer o referendo de domingo sobre a nova Constituição de caráter socialista promovida pelo presidente Rafael Correa para o Equador, segundo pesquisas divulgadas nos últimos dias. A nova Carta amplia o papel do Estado em setores estratégicos da economia, como mineração, petróleo e agropecuária, conforme havia prometido o popular Correa em sua campanha eleitoral, em 2006. "Realmente, acho que esta é a última oportunidade de mudança pacífica no Equador, de uma mudança democrática, constitucional, e há pessoas que não querem deixar o passado", disse Correa recentemente. Críticos dizem que a nova Constituição pode afastar investimentos privados, concentrar poderes excessivos nas mãos do Executivo e implicar gastos sociais exagerados para o país, onde há baixo crescimento e inflação galopante. A Igreja Católica também é contra a proposta, alegando que ela promove o aborto e o casamento homossexual --embora esses dois itens não sejam abordados no texto constitucional. As últimas pesquisas mostram que o "sim" deve superar por pelo menos 7 pontos percentuais a soma de votos no "não", os brancos e os nulos. A nova Carta também institui a reeleição do presidente, cria a possibilidade de uma moratória da dívida externa que for considerada "ilegítima" e concede uma ampla margem de manobra para renegociar os vitais contratos de petróleo. Um aliado socialista de Correa na região, o venezuelano Hugo Chávez, também aprovou uma nova Constituição depois que chegou ao cargo, em 1998, embora no ano passado tenha sido derrotado nas urnas em sua tentativa de reformá-la para ampliar seus poderes. Na Bolívia, o presidente Evo Morales negocia com a oposição para convocar um referendo que deve aprovar uma nova Constituição, com mais poderes para a maioria indígena e mais envolvimento do Estado na economia. No caso do Equador, onde 60 por cento dos 13 milhões de habitantes vivem na pobreza, o crédito mais acessível, os supermercados subsidiados e a ajuda para construções populares estimulam grande parte da população, que habitualmente se sente marginalizada, a votar pelo "sim". Encravada nos Andes centrais do país, a localidade indígena de Zumbahua, onde Correa passou um ano como missionário na juventude, ilustra como o Estado está se tornando presente em áreas rurais que passaram décadas desoladas e vendo sua população migrar. "As coisas têm de mudar, e agora vejo que as coisas realmente estão mudando", disse Gerardo Pallo, um agricultor da etnia quéchua, de 32 anos, que acabava de solicitar um empréstimo na recém-inaugurada agência de um banco público, o primeiro desta localidade. Como Pallo, milhões de equatorianos se beneficiam com os numerosos programas sociais e agora querem retribuir votando "em Correa" no referendo, mesmo desconhecendo totalmente o texto constitucional. Mas derrotar o passado e uma oposição desarticulada seria o menor dos problemas para Correa, dizem analistas, lembrando que sua intensa campanha desperta esperanças exageradas na população, que imaginam o fim de todos os seus problemas depois da vitória do "sim". "Existe um risco real se ele não cumprir suas promessas", disse Polibio Córdova, diretor do instituto Cedatos-Gallup. "Correa deve ter cuidado, o povo é um leão adormecido." (Por Enrique Andrés Pretel)

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