Especialista italiano critica esforços internacionais no Haiti

Responsável pelas operações de resgate em L'Aquila diz que tragédia se transformou em 'desfile de vaidades'

Jamil Chade,

25 de janeiro de 2010 | 12h09

O principal responsável pelas operações de resgate do terremoto de L'Aquila, Guido Bertolaso, qualificou os esforços internacionais no Haiti de "patéticos" e disse que o país se transformou em um palco para um "desfile de vaidades" entre diferentes governos no mundo. Segundo ele, as autoridades precisam parar de posar para as câmeras e trabalhar.

 

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As duras críticas foram feitas na noite de domingo, 24, na TV Rai. Ontem, o governo italiano - por meio do ministro de Relações Exteriores, Franco Frattini, foi obrigado a se distanciar dos comentários, apontando que não se tratava de uma posição oficial de Roma. Bertolaso, porém, tem status de ministro no governo e passou a ser conhecido depois da operação na região de Abruzzo no terremoto de 2009.

 

Bertolaso é o chefe do Serviço de Proteção Civil da Itália e não poupou críticas aos americanos, alertando para a falta de liderança na operação. Ele ainda alertou que enviar soldados não é a solução, já que não estão treinados para esse tipo de socorro.

 

"O Haiti vive uma situação terrível e que poderia ter sido muito melhor administrada", disse. "Quando há uma emergência, vemos um desfile de vaidade, com muita gente ansiosa para mostrar que seu país é grande e importante, mostrando solidariedade", disse. "Espero que seja a última vez que o mundo age dessa forma."

 

"Infelizmente, há a necessidade de fazer bonito para as câmeras de TV em vez de se focar sobre o que está sob os escombros", disse.

 

Parte das críticas foram feitas contra os Estados Unidos. "Está faltando um líder, com capacidade de coordenação que vá além da disciplina militar", disse. Sobre o envio de tropas americanas, ele foi duro: "É uma verdadeira demonstração de força. Mas totalmente fora da realidade".

 

Chamando a operação americana de "ineficiente", Bertolaso ainda indicou que a falta de coordenação gerou um "fracasso patético". Para ele, a única forma de solucionar o problema seria a designação de um coordenador humanitário para o Haiti.

 

Bertolaso não é o primeiro a criticar a operação no Haiti. O ex-número 1 da ONU para operações humanitárias, o norueguês Jan Egeland, atacou na semana passada a entidade, o governo do Haiti e diz que muitos morreram após o terremoto "de forma desnecessária". "Esse é o escândalo real dessa história", afirmou.

 

"Milhares de pessoas morreram sem que isso precisasse ocorrer", afirmou Egeland que, em 2004, comandou a operação na Ásia em relação ao tsunami e chegou a ser mencionado como potencial candidato para o posto de secretário-geral da ONU.

 

Em sua avaliação, nem a ONU nem o governo haitiano prepararam o país para um desastre natural. "O Haiti é um dos países mais atingidos por desastres naturais e não estava preparado", disse. "A culpa é dos políticos locais, mas também da ONU e das ONGs que não investiram no desenvolvimento do Haiti", atacou. Mas os problemas não param por ai. Segundo ele, "a ajuda não chegou à tempo nem de forma suficiente".

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