Estudantes e prefeito tinham conflito antigo

Estudantes e prefeito tinham conflito antigo

Chamado de ‘narcoprefeito’, líder foi acusado de matar dirigentes de organizações de esquerda

Lourival Sant'Anna, enviado especial, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2014 | 17h26


IGUALA, MÉXICO - Um dos muitos aspectos intrigantes do suposto massacre de Iguala é o que estudantes da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, de Ayotzinapa, a cerca de 250 quilômetros de distância, foram fazer na cidade. Moradores de Iguala, que pediram para não ser identificados, contaram que os jovens normalistas frequentavam a região havia pelo menos um ano e meio, quando vieram depredar o prédio da prefeitura. 

O prefeito José Luis Abarca foi acusado de mandar torturar e matar três líderes da organização de esquerda Unidade Popular, em 30 de maio de 2013. Antes de sua morte, esses ativistas, que lutavam pelos direitos dos camponeses, haviam tido conflitos com o prefeito.

Para ser aluno das escolas de formação de professores rurais é preciso comprovar renda muito baixa e provir de uma família de camponeses. Essas escolas em tempo integral se transformaram em redutos de organizações de esquerda. 

Os estudantes bloqueiam estradas para exigir dinheiro dos motoristas, saqueiam pedágios e empresas privadas. Na época do suposto massacre, estavam em campanha de arrecadação de fundos para realizar uma marcha em 2 de outubro, aniversário do massacre de Tlatelolco, em 1968, resultado da repressão policial contra manifestantes.

Conhecido por seus detratores como “narcoprefeito”, Abarca personifica, para esses movimentos sociais, a decadência da democracia mexicana, que permitiu a ascensão política e econômica do crime organizado. Seu rápido enriquecimento desde que se tornou prefeito, em 2012, é considerado um sinal de suas alianças obscuras com poderes paralelos. Ele é dono de muitos imóveis e negócios em Iguala, incluindo uma galeria, um centro comercial de joalherias, farmácias, pizzarias e uma universidade, administrada por sua irmã, Rosalía. 

História. Além disso, a cidade, cujo nome completo é Iguala da Independência, tem um simbolismo para quem almeja dar início a uma revolução. Aqui foi elaborado, em 1821, o Plano de Iguala, que estabelecia a independência do México em relação à Espanha, formou-se o Exército Trigarante e criou-se a bandeira mexicana.

O massacre serviu de combustível para movimentos revolucionários de todo o país, mas principalmente dos Estados do México (onde fica a capital) e de Guerrero, que reúnem estudantes de escolas técnicas, professores e alunos de universidades públicas. Eles contestam a democracia representativa, a economia de livre mercado e até a existência de um Estado central. 

“Eles vieram esculhambar com a festa, manchar o evento, mas não pensaram que a senhora (a primeira-dama, María de los Angeles Pineda) reagiria dessa forma”, observa um comerciante da Rua Álvarez, via próxima do local para onde os estudantes foram levados. “Já sabíamos onde vivem, a que se dedicam, o dinheiro que giram”, continuou o comerciante, referindo-se aos traficantes e aos políticos locais ligados a eles. “Sai à luz internacional algo que no México já se sabe. Para chegar a esse nível de poder econômico e político leva muitos anos.” 

Mais conteúdo sobre:
méxicoprotestosestudantes

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.