EUA: Acordo com Colômbia é assunto 'estritamente bilateral'

Governo considera que o futuro acordo não é uma questão que deve ser motivo de polêmica na região

Efe e Reuters,

14 de agosto de 2009 | 17h58

Os Estados Unidos defenderam nesta sexta-feira, 14, um novo acordo de cooperação militar que negocia com a Colômbia para o uso de até sete bases desse país, ao destacar que não é um assunto que compete à região, mas se trata de um tema "estritamente bilateral".

 

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As declarações feitas pelo porta-voz do Departamento de Estado, Philip Crowley, acontecem em um momento no qual os Estados Unidos e uma comissão da Colômbia tentam fechar o acordo em Washington, que permitirá ao Governo do presidente Barack Obama usar até sete bases colombianas para a luta conjunta contra o narcotráfico, o crime transnacional e o terrorismo.

 

Os planos dos EUA, que realizavam antes este tipo de operações desde a base equatoriana de Manta, cuja concessão não foi renovada por Quito, criou mal-estar entre alguns presidentes da região, especialmente de países-membros da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba) que o veem como uma ameaça.

 

Mas o Governo dos Estados Unidos considera que o futuro acordo não é uma questão que deve ser motivo de polêmica na região, porque se trata de um "assunto estritamente bilateral", afirmou Crowley em sua entrevista coletiva diária.

 

O porta-voz não quis prever em que momento se poderia fechar definitivamente o acordo com a Colômbia, ao limitar-se a destacar que as "conversas continuam".

 

A comissão colombiana, que se encontra em Washington para liquidar alguns pontos do acordo, espera que durante este fim de semana se feche o convênio definitivamente.

 

"O acordo nos permitiria acesso a instalações militares colombianas para poder levar a cabo atividades conjuntas previamente estipuladas. Se o conseguirmos, seria similar a acordos que temos com outros muitos amigos próximos no mundo todo. Mas estas conversas continuam", acrescentou.

 

A proposta que permite às forças dos EUA o uso de até sete instalações militares colombianas causou preocupação na região e alimentou tensões nos Andes, onde o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e seus aliados esquerdistas se opõem à influência norte-americana.

 

O governo dos EUA diz que o plano é uma ampliação da cooperação existente com a Colômbia, que recebeu mais de 5 bilhões de dólares em ajuda para combater o tráfico de cocaína e as guerrilhas marxistas Farc, o mais antigo grupo de insurgentes na América Latina.

 

"As missões são as mesmas, são ações antinarcóticos e contra suas ligações com o terrorismo na Colômbia", disse Frank Mora, o assistente da Subsecretaria dos EUA para o Hemisfério Ocidental, em declaração à Reuters na noite de quinta-feira. "Teremos mais acesso, mas isso não significa que teremos mais vantagens ou mais tropas", acrescentou Mora.

 

Ajudado pelos recursos dos EUA, o presidente colombiano, Alvaro Uribe, tem enfrentado as guerrilhas das Farc, que foram confinadas a selvas remotas e montanhas. A violência e os atentados diminuíram drasticamente, e o investimento externo aumentou.

 

Mas a Colômbia continua sendo o maior exportador mundial de cocaína. Os carregamentos da droga são embarcados via Oceano Pacífico para o norte e através da Venezuela e do Caribe até a Europa. As Farc continuam fortes em algumas áreas rurais, valendo-se de emboscadas contra as forças de segurança e táticas de atacar e se retirar em seguida.

 

A investida dos militares dos EUA em sete pequenas bases colombianas é parte de uma ampla mudança na estratégia norte-americana de distanciamento das instalações grandes e permanentes do tempo da Guerra Fria e opção por locações pequenas arrendadas de aliados mais próximos, em áreas de grande conflito, disse uma outra autoridade da defesa dos EUA.

 

Os militares dos EUA têm operações vitais em seis países na região da América Latina e Caribe.

Na Colômbia, essas operações se concentram em apoio logístico, de inteligência e treinamento para aperfeiçoamento das Forças Armadas colombianas. Pelo atual acordo entre os dois países, a presença militar norte-americana está limitada a 800 soldados e um número adicional de 600 civis atuando sob contrato. Segundo Mora, isso não irá mudar. Atualmente os EUA mantêm 260 soldados na Colômbia, disseram autoridades.

 

"Este acordo é bilateral. Trata-se do aprofundamento de nosso relacionamento com os colombianos", afirmou Mora. "Não é nenhuma tentativa de fortalecer o país contra algum outro da região."

 

Mas a proposta encontrou resistência na região. O Brasil, uma potência regional, expressou preocupação com o plano, e outros países o definiram como preocupante. Chávez e um grupo de esquerdistas qualificaram a proposta de agressão e o líder venezuelano adotou medidas econômicas contra a Colômbia por causa do plano.

 

Argentina e Brasil

 

A União de Nações Sul-americanas (Unasul) enfrenta um "novo desafio" na tentativa de encontrar uma saída ao conflito gerado pelo acordo negociado entre a Colômbia e os Estados Unidos, para a utilização de bases militares em território colombiano, afirmou o chanceler argentino, Jorge Taiana. A Unasul "tem vontade política de encontrar uma solução, embora (a organização) ainda esteja muito submissa a condicionamentos internos e a relações ainda frágeis", assinalou o chanceler, em reunião com um grupo de correspondentes estrangeiros.

 

Taiana evitou falar sobre detalhes da cúpula extraordinária da Unasul, que será realizada na cidade de Bariloche, na Argentina, no dia 28 de agosto, após a polêmica gerada na recente reunião de Quito. No entanto, considerou que é importante recuperar a capacidade de diálogo entre os membros da Unasul e admitiu que o conflito afeta o Conselho Sul-americano de Defesa, que não tem previsão de nenhuma reunião extraordinária antes da cúpula em Bariloche.

 

Já o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que participará da Cúpula Extraordinária da Unasul, mas quer ter certeza de que "haverá resultados", disseram fontes oficiais à Agência Efe.

"A expectativa do Brasil é que haja contatos prévios" à cúpula, que será realizada na cidade argentina de Bariloche, pois Lula "está profundamente insatisfeito" com o fato de que as reuniões presidenciais não sirvam para chegar a acordos em assuntos delicados, declarou um membro do Governo consultado pela Efe.

 

Segundo a fonte consultada pela Efe, Lula recebeu, na quarta-feira, uma ligação da presidente argentina, com quem acordou que haja "contatos prévios" entre os chanceleres dos países da Unasul, com o objetivo de chegar à cúpula de Bariloche com algum tipo de acordo. Lula perguntou a Cristina "Que tipo de resultado espera da reunião?", pois "está convencido" de que "não pode, nem deve repetir" o que acontecer em Quito, na última cúpula da Unasul, que evidenciou todos os desacordos que existem na região sobre os planos colombianos, indicou a fonte.

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