Evo adverte oposição boliviana que 'paciência tem limite'

Quatro morrem em choques entre partidários e oposicionistas; parte do envio de gás ao Brasil é retomado

Agências internacionais,

11 de setembro de 2008 | 14h27

O presidente boliviano, Evo Morales, advertiu nesta quinta-feira, 11, que a "paciência tem um limite" após a onda de violência desatada no país por grupos opositores do governo. "Vamos ter paciência, prudência e, como sempre, evitar o confronto. Vamos agüentar, mas a paciência tem um limite", declarou o líder boliviano durante a entrega de uma obra pública na capital La Paz. Choques entre partidários de Evo e opositores deixaram pelo menos quatro mortos e 20 feridos na região rural ao norte do Departamento de Pando, informou o vice-ministro do Interior, Rubén Gamarra.    Veja também: Bolívia retoma parte do fornecimento de gás ao Brasil Lula expressa apoio a Evo diante da crise na Bolívia Chávez ameaça 'apoio armado' à Bolívia se Evo for derrubado Forças Armadas vigiarão dutos após ataques  Ex-presidente diz que não há risco de golpe  Entenda os protestos da oposição na Bolívia Enviada do 'Estado' mostra imagens dos protestos na Bolívia  Imagens das manifestações     Parte do fornecimento de gás natural ao Brasil, que havia sido suspenso em 50% devido às ações dos manifestantes, foi retomado pela empresa Transierra depois de sete horas de interrupção. Além disso, o governo brasileiro anunciou nesta quinta que o ministro-interino das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, e o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, viajarão para a Bolívia para ajudar a encontrar uma solução negociada entre a equipe de Evo e a oposição.   A Bolívia vive nesta quinta o terceiro dia consecutivo de violência em várias regiões do país, todas controladas por opositores autonomistas que exigem a restituição de um imposto sobre o gás e o petróleo que antes era repassado para os governos dos departamentos bolivianos e são contra a nova proposta constitucional do governo. Até agora, o Exército boliviano não interveio na crise.   Em uma entrevista coletiva em Brasília, o ministro da Fazenda da Bolívia, Luis Alberto Arce, disse que as Forças Armadas bolivianas devem ser convocadas para resguardar os campos de petróleo. Arce denunciou uma "tentativa de golpe civil", conduzido por pequenos grupos que promoveram atos de "vandalismo" e de "terrorismo" nos últimos dias. "A polícia já está investigando os responsáveis pelos atos de vandalismo e terrorismo". Entre os terroristas, listou a União Juvenil Crucenhista. Arce insistiu que esses grupos são financiados e respondem a ordens, mas não identificou claramente de quem. Conforme argumentou, a onda de violência coincidiu com a chegada no país de um líder da oposição que vivia em Miami.   Segundo Arce, embora o estado de Sítio seja uma das alternativas constitucionais para a imposição da ordem no país, o governo boliviano resiste em decretá-lo porque submeteria toda a população do país a uma situação de emergência por conta de ações de grupos pequenos e regionais. Questionado sobre a resistência das Forças Armadas em reagir aos ataques civis às instalações do setor de gás e aos prédios públicos, por desconfiança de que o governo de Evo não assumirá a responsabilidade pelas conseqüências, Arce insistiu que os militares "estão respondendo ao mandato do presidente". "As Forças Armadas vão participar do restabelecimento da ordem e da captura dos terroristas", declarou.   O embaixador da Bolívia no Brasil, que participou da entrevista coletiva ao lado de Arce, em um hotel em Brasília, ressaltou que a Bolívia nunca descumpriu contrato de fornecimento de gás para o Brasil e que "atos terroristas não podem estar nas previsões de nenhum governo."   Fornecimento de gás    O assessor de Assuntos Internacionais da Transierra, Hugo Muñoz, afirmou à agência Associated Press que a empresa conseguiu retomar o envio dos 14 milhões de metros cúbicos de gás que haviam sido interrompidos. A companhia ainda não conseguiu retomar o envio de outros três milhões de metros cúbicos que deixaram de ser enviados desde a quarta-feira, por causa de uma avaria em um duto do campo San Alberto, operado pela brasileira Petrobrás.   Mais cedo, um novo incidente interrompeu totalmente as operações do principal gasoduto que transporta gás da Bolívia para o Brasil, segundo informou nesta quinta-feira a empresa que administra o gasoduto, Transierra. Em comunicado, a empresa afirmou que uma válvula de segurança na estação de Buena Vista, a 70 quilômetros de Villa Montes, foi "manipulada, gerando interrupção total do serviço que prestamos pelo GASYRB (gasoduto Yacuíba-Rio Grande)". "Atualmente, desconhecemos a forma como se efetuou essa manobra e se há danos", disse a Transierra. "Já mobilizamos pessoal para tomar as medidas necessárias."   Na quarta-feira, uma explosão em outro ponto do mesmo gasoduto teria reduzido em 3 milhões de metros cúbicos diários o envio de gás ao Brasil. Na nota desta quinta-feira, a Transierra afirmou apenas que "até esta madrugada a área ainda seguia em chamas, motivo pelo qual não pudemos ter acesso para avaliar os possíveis danos".   Posição brasileira   Para o Itamaraty, a Bolívia está à beira de uma guerra civil. O governo não pode contar com a lealdade das Forças Armadas para proteger efetivamente os prédios públicos e o Gasoduto Brasil-Bolívia (Gasbol), que tornaram-se alvos de ataques de setores oposicionistas nos últimos dias. Os militares não querem assumir a função de conter os manifestantes, sob o argumento de que essa atribuição seria da polícia. Escaldados, os comandantes temem que o governo não venha a assumir a responsabilidade final de possíveis conflitos de militares com civis.   A chancelaria brasileira avalia que a única saída para a crise seria um recuo do governo boliviano em duas questões - a realização em dezembro próximo de um referendo sobre a Constituição, que foi elaborada e aprovada exclusivamente pelo partido do governo, e o corte dos repasses aos Estados (Departamentos) de uma parcela da receita do imposto que incide sobre a produção do gás. O presidente Evo Morales resiste.   (Com Leonardo Goy, Denise Crispim Marin e Renata Miranda, de O Estado de S. Paulo, e Gabriel Bueno, da Agência Estado)  

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