Evo Morales convoca opositores para negociação no domingo

Governo declara estado de sítio em Pando, onde 14 morreram; brasileiros teriam sido feridos em tiroteio

Agências internacionais,

13 de setembro de 2008 | 10h24

O presidente da Bolívia, Evo Morales, convocou para o domingo, em La Paz, uma reunião com os prefeitos (governadores) da oposição. A informação foi dada pelo prefeito de Tarija, Mario Cossío, na madrugada deste sábado, 13, mesmo dia em que Evo admitiu que está disposto a negociar sua proposta constitucional para o país. A Bolívia declarou na sexta estado de sítio em Pando, no norte, diante da violência na região e o crescente número de vítimas. Pelo menos 18 pessoas foram mortas nos choques entre a oposição e partidários de Evo na região amazônica. Segundo a Agência Brasil, três brasileiros teriam sido feridos nos confrontos.  Veja também:Entenda os protestos da oposição na BolíviaFilas se formam em frente às distribuidoras de gás  Imagens das manifestações  Chávez aproveita deterioração diplomática dos EUA Exportação de gás boliviano ao Brasil foi normalizadaLula confirma presença em reunião para discutir crise bolivianaGovernador de Pando será preso por descumprir estado de sítio O vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, e o governador de Tarija, se reuniram na sexta para abrir o processo de negociações que se estendeu durante a madrugada, em que as duas partes coincidiram na necessidade de um acordo. Segundo a agência Efe, as conversar serão retomadas no domingo, com outro encontro no Palácio do Governo, em La Paz, com a participação. Segundo um jornalista brasileiro que está cobrindo a crise boliviana na fronteira com o Acre dois homens e uma criança foram baleados por milicianos quando se dirigiam para a cidade de Cobija, de caminhão. Um dos homens foi ferido na clavícula e outro, nas costelas. A menina, filha de um deles, também se feriu. Alexandre Lima afirmou que eles foram internados no Hospital Roberto Galindo, em Cobija, para observação e não correm risco de morte. O opositor Marío Cossío afirmou que a missão do encontro com o governo era abrir o que pode se converter em um processo de diálogo. O prefeito acredita que é possível alcançar um "pacto nacional", que permita solucionar os problemas em um cenário de reconciliação nacional. "Estou convencido de que o momento para expressarmos nosso desejo de diálogo e de reconciliação é agora, e não mais tarde", havia dito Cossío antes do encontro. "Não devemos repetir a história de outros países que tiveram de sentar e dialogar apenas depois de milhares de mortes". Na segunda-feira, um encontro entre os países sul-americanos em Santiago, no Chile, também tratará do tema, informou o governo venezuelano.  As tentativas ocorrem em meio a violentos enfrentamentos entre opositores e apoiadores do presidente Evo Morales. Na sexta-feira, o governo decretou estado de sítio no Departamento (Estado) de Pando, onde pelo menos 14 pessoas morreram no dia anterior. A medida estabelece, entre outras restrições, a proibição de portar armas de fogo, armas brancas, materiais explosivos e a circulação de mais de três pessoas juntas e de veículos entre a meia-noite e 6 horas. Ela também proíbe a organização de reuniões políticas e manifestações, e impõe para os cidadãos a necessidade de obter um salvo-conduto para viagens fora da região. Os direitos e garantias individuais são temporariamente suspensos, e os poderes Legislativo e Judiciário são submetidos ao Executivo. Somente é decretado em situações de emergência nacional. Evo afirmou neste sábado que não acredita que o estado de sítio será ampliado para outras regiões do país. "Se os governos [opositores] interromperem os ataques contra propriedades do Estado e da população - oleodutos e refinarias - não vejo razão para estender a medida", afirmou. O presidente disse ainda que está disposto a debater e revisar sua proposta constitucional, considerando as demandas dos governadores de opositção que exigem a autonomia das regiões opositoras e são contra a Constituição que Evo tenta implementar no país. Em Santa Cruz, outro Departamento governado pela oposição, manifestantes voltaram a interromper o trânsito na fronteira com Corumbá, no Mato Grosso do Sul. As aulas continuaram suspensas e diferentes aeroportos continuam fechados. Um grupo de cerca de 20 estudantes ocupou a sede da Presidência boliviana em Santa Cruz, diante da polícia, que não ofereceu resistência.  Internacionalização do conflito Ao mesmo tempo, o conflito se internacionaliza, com o governo boliviano acusando os Estados Unidos de apoiarem grupos que tentam desestabilizar o presidente Evo. La Paz e Washington já anunciaram a retirada mútua de embaixadores, medida realizada posteriormente pela Venezuela "em solidariedade à Bolívia". Na segunda-feira, os países da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) se reunirão em Santiago, capital do Chile, para discutir o tema, informou o presidente venezuelano, Hugo Chávez, a um programa da TV oficial venezuelana. Chávez afirmou ter conversado com os presidentes de Brasil, Bolívia, Argentina, Paraguai, Chile, Equador e Colômbia sobre o encontro. "Estivemos fazendo consultas cruzadas e concordamos em nos reunir em Santiago do Chile na segunda-feira à tarde, para atuar a tempo, e não quando houver milhares de mortos na Bolívia", disse o líder venezuelano, segundo a Agência Bolivariana de Notícias. "Há um golpe montado, vão tirar o Evo debaixo dos nossos narizes, um golpe na nossa América." O governo bolivariano já expressou que poderia intervir militarmente no vizinho aliado se o presidente eleito legitimamente for vítima de um golpe - possibilidade que as próprias Forças Armadas bolivianas rejeitaram. Em entrevista à BBC Brasil, o ministro das Relações Exteriores venezuelano, Nicolás Maduro, disse que os militares bolivianos não souberam entender a mensagem de "solidariedade" da Venezuela, e insistiu que seu país exercerá o "direito à rebelião" para restituir o governo Morales em uma situação extrema. "Já foi o tempo em que os EUA promoviam golpes e os demais países assistiam sem reagir", disse Maduro. Matéria atualizada às 11h45.

Tudo o que sabemos sobre:
Bolíviacrise na Bolívia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.