Evo Morales e oposição vão a diálogo sem oferecer concessões

Sem baixar o tom de suas mútuas acusações, o presidente Evo Morales e os prefeitos regionais da Bolívia, em sua maioria opositores, abrirão na segunda-feira um diálogo que busca colocar um ponto final na polarização provocada por processos paralelos de mudanças na Constituição e de autonomias das províncias.   O encontro em La Paz acontece a apenas 15 dias do segundo aniversário do mandato do líder indígena, durante os quais tem lutado contra uma dura resistência conservadora a seus planos de "refundação" do país e de nacionalização da economia.   A ampla disputa política na Bolívia é acompanhada com interesse por vizinhos como Brasil e Argentina, que recebem importantes quantidades de gás natural do país, cuja indústria petrolífera foi nacionalizada por Morales.   O presidente boliviano, aliado dos governantes socialistas Hugo Chávez, da Venezuela, e Fidel Castro, de Cuba, denunciou no final de semana "interesses externos" que estariam por trás da oposição de direita interna, encabeçada por líderes regionais do rico distrito de Santa Cruz.   "Partidos conservadores da Espanha, dos Estados Unidos e de alguns países europeus conspiram em coordenação com setores de oposição no país e contra a nova Constituição para frear o processo de mudanças", disse Morales no sábado, segundo a agência estatal de notícias ABL.   Isto "não somente tenta afetar o país, assim como toda a região sul-americana (...), mas felizmente na América Latina há democracias libertadoras e não submetidas nem subordinadas ao império", acrescentou.   Também no sábado, o prefeito de Santa Cruz, Rubén Costas, liderou uma grande concentração "autonomista" na qual advertiu que essa região não cederá "nem um milímetro" em sua oposição à mudança constitucional e a sua demanda por autonomia.   Entre outras alterações, a constituição em disputa define a Bolívia como um Estado "plurinacional", que nacionaliza a economia, proíbe o latifúndio e estabelece um regime de autonomias que se estende até os níveis dos departamentos, províncias, regiões especiais e comunidades indígenas.   Os opositores de Santa Cruz e outros quatro distritos, entre eles Tarija, onde está a maior parte das reservas de gás do país, qualificam como "ilegal" a nova carta magna, aprovada em dezembro por uma Assembléia Constituinte da qual a oposição se auto-excluiu.   A oposição pretende que a autonomia chegue somente ao nível dos departamentos, e inclusive lançou projetos de estatutos distritais que o governo qualificou de "separatistas".   Os rebeldes querem falar também sobre a divisão interna de um imposto do petróleo, recém-modificado pelo governo, mas não se pronunciaram sobre a proposta de Morales de convocar referendos revogatórios de seu próprio mandato e dos de prefeitos.   O Defensor do Povo, Waldo Albarracín, e representantes de uma dezena de organizações civis e religiosas de diversas tendências conclamaram no sábado o governo e a oposição a não desperdiçar a oportunidade de dar na segunda-feira "um passo histórico" de unidade nacional.   "Não queremos que exista uma ruptura no diálogo, não queremos que haja intransigência", disse Albarracín, segundo jornais locais.

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