Evo Morales e suas lições de nacionalismo além mar

Em clima de 'La Lucha Sigue', presidente foi ovacionado por dois mil estudantes italianos em Roma

Flávia Guerra, Estadão

13 de novembro de 2007 | 14h24

"Se este fosse um país verdadeiramente democrático, a TV pública estaria aqui hoje cobrindo este encontro", disse Gianni Minà, líder de esquerda, jornalista e documentarista italiano na noite em que a esquerda italiana parou para ouvir o presidente Evo Morales dar lição de nacionalismo e identidade latino-americana.  O país, claro, era a Itália. A TV pública que faltou: a RAI. O encontro oficial: Evo Morales na Università Sapienza, a mais antiga universidade romana. A imprensa presente: pouco mais de dois ou três veículos italianos, uma TV local e muitos estudantes registrando o encontro para o jornal universitário.  Em tempos em que imigrantes são cada vez mais alvo de antipatia por parte dos italianos, receber um presidente boliviano de origem indígena é algo que merece dois minutos de atenção. Há quem dia que a tal da implicância contra os imigrantes, cuja bola da vez são os romenos, deveria ser chamada pelo devido nome de xenofobia. Exagero ou não, a Itália é um país cada vez mais às voltas com a presença do estrangeiro.  Neste mosaico alla italiana, o debate entre esquerda revolucionária (defensora ferrenha dos direitos de ir e vir dos imigrantes) e a direita conservadora (que defende o aumento do rigor em relação aos imigrantes que cada vez mais se afogam, literalmente, em busca de uma vida mais próspera) parece estar cada vez mais atual na Itália. Os dois lados da balança poucas vezes pareceram estar tão polarizados. Pelo menos, no que diz respeito aos jovens italianos. Além da imigração e da xenofobia, um dos principais temas em discussão no país é a condenação dos jovens militantes de esquerda que protestaram em Gênova durante a reunião do G8 realizada na cidade italiana, em julho 2001.  E onde entra Evo Morales neste quebra-cabeça macarrônico? Entra na medida em que sua passagem por Roma pareceu atrair muito mais românticos de esquerda do que a opinião pública, mesmo depois de Evo ter sido destaque de capa dos principais veículos de imprensa italianos. "Água Pública? Assino embaixo." "Um outro mundo é possível. Sim, ele é socialista." Eram as palavras de ordem e os cartazes que se espalhavam pelo auditório Aula Magna da Sapienza, universidade pública e de tradição esquerdista na Itália, país que já teve o magnata das comunicações e um dos líderes da Forza Itália Silvio Berlusconi no poder, e hoje tem Romano Prodi como primeiro ministro.  Na sua passagem pela Itália, no fim de outubro, Evo cumpriu uma agenda intensa. E, obviamente, encontrou Prodi, o presidente da República, Giorgio Napolitano, o presidente da Câmara dos Deputados, Fausto Bertinotti, e outros líderes italianos. Mas dedicou atenção especial aos estudantes italianos que o receberam. Simpatizantes e militantes de esquerda, os jovens que passaram duas horas ouvindo Evo discursar ainda esbanjam certo romantismo e muito vigor diante de palavras de ordem como "A Luta Segue".  A Direita Vive! mas La Lucha Sigue!  Cartazes sobre a passagem de Evo pela cidade dividiam espaço nos muros de Roma com outros menos, digamos, revolucionários. "A Direita vive!". Mas para os estudantes da Sapienza, a Itália ainda tem espaço para entoar o mantra 'La lucha sigue'.  E os companheiros de luta do presidente cocaleiro não deixaram por menos. Nada se compara a ser recebido por mais de dois mil estudantes que aplaudiam calorosamente a cada explanação sua. Evo se esforçou para explicar aos europeus o que significa o Movimento dos Agricultores Indígenas e como sua chegada à presidência da Bolívia, há dois anos, tem mudado não só a política como a vida social de fato no país.  "Não sou contra os estrangeiros. Nós não somos separatistas. Simplesmente não admitimos que a coca seja tratada como droga. Ela é sagrada para nós, que a consumimos como chá, como infusão, para nos dar mais energia. E preparamos até mesmo um bolo de coca. Cocaína quem criou foi a civilização ocidental. Nós não temos nada a ver com isso." Mais palmas.  Mas, líder sindicalista competente que foi e ainda é, Evo não se apoiou somente em slogans revolucionários e considerações espirituosas sobre a importância da "cultura da vida indígena boliviana para o mundo". Munido de informações detalhadas, fez questão de provar por A+B porque a nacionalização dos recursos naturais de seu país, como o gás e a água, têm mudado a vida dos milhões de bolivianos que vivem na miséria.  "Por que um país que é tão rico em recursos naturais tem tantos pobres?", perguntou. E respondeu por ele mesmo: "Porque antes os nossos recursos eram explorados por empresas multinacionais, por estrangeiros. Viravam lucros em bancos internacionais enquanto a Bolívia era vista como um país a qual não se pode dar, literalmente crédito. Isso me doía muito. E isso não pode mais. A Bolívia é, sim, um país viável", bradou o presidente boliviano.  A ovação tomou conta do auditório. Em seu discurso, acalorado, mas racional, era notório o esforço de Evo para provar que seu governo está calcado em planos a longo prazo de tirar a Bolívia da condição de ex-colônia fornecedora de recursos e alçá-la ao patamar de país autônomo e próspero. Evo não quer brigar com seus vizinhos. Quer se equiparar. Por isso, fez questão de agradecer a presença dos embaixadores da Venezuela, Cuba e Equador pela presença e apoio. A embaixada do Brasil não estava presente. Sobre o País, aliás, no melhor estilo "O Gás é Nosso!", uma menção: "Tiramos duas refinarias do comando da Petrobrás brasileira. Elas pertencem ao estado boliviano."  Álbum de Família  Como não aplaudir? Como estudantes que vêem seus líderes de esquerda "perderem sua identidade vermelha" a cada dia poderiam discordar de lemas tão nobres? Evo deixou o auditório ao som de "O Povo Unido Jamais Será Vencido". De punhos fechados e cabeça aberta, os italianos provaram porque, entre outros eventos paralelos, o Festival de Cinema de Roma não foi encerrado por Sharon Stone, mas sim pelo documentário Fidel Conta Che, de Gianni Minà.  Com ou sem cheiro de bolor e altos graus de hipermetropia revolucionária, na Itália, tudo indica que "La Lucha ainda Sigue". Tanto que um dos hits entre os adolescentes italianos é o álbum de figurinhas lançado pelo Il Manifesto, o mais "vermelho" dos periódicos do país, em comemoração aos 90 anos da Revolução Russa. O que era para ser uma alusão irônica à decadência das ideologias de esquerda em uma Itália cada vez mais desiludida acabou se tornando um hit pop. Não raro é ouvir discussões em mesa de bar: "Você já tem o Marx? Eu já tenho o Lenin e até mesmo o Filippo Turati, mas o Marx não consigo achar de jeito nenhum." É... Vão-se os vultos e as ideologias. Ficam as figurinhas. Quiçá Evo Morales e Hugo Chávez não entram na segunda edição.

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