Evo Morales está disposto a lutar contra autonomia na Bolívia

Na véspera do referendo, presidente boliviano diz que impedirá que proposta seja implantada com uso da força

Agências internacionais,

03 de maio de 2008 | 11h58

Alguns políticos acreditam que ele esteja encurralado por seus adversários, mas o presidente boliviano, Evo Morales, está disposto a lutar por mais "500 anos" contra os autonomistas do Departamento de Santa Cruz se eles implantarem por meio da força o seu estatuto de governo autônomo depois do referendo que acontece neste domingo, 4.    Tensão aumenta na Bolívia em véspera de referendo  OEA rechaça qualquer tentativa de ruptura territorial na Bolívia Entenda o referendo sobre autonomia   "Depois que os autonomistas perderam espaços no governo nacional para enriquecimento ilícito, agora buscam um governo departamental para seguirem vivendo do povo, do Estado, por tanto, esta é uma luta ideológica", disse do chefe de governo à Associated Press. "Tratam de confundir o país, e parece que fizeram uma lavagem cerebral em vocês quando perguntam o que vai acontecer" depois do referendo, assinalou. A referência dos 500 anos, freqüente em seus discursos, tem relação com a resistência dos indígenas aos colonizadores brancos.   O projeto constitucional que é rechaçado pelas regiões opositoras de Evo alegam que sua aprovação foi ilegal, já que deputados do grupo foram impedidos de participar da votação, e que ele deve ser submetido a referendos antes de entrar em vigor. Evo defende que sua proposta pode ser ampliada com a dos autonomistas. "Sempre há diálogo, sempre existem soluções. Porém, quando são interesses de grupos, de famílias, que querem ostentar o poder econômico, político, os opositores se equivocam", disse o presidente.   Milhares de crucenhos vão às urnas no domingo para decidir se aprovam o estatuto autonômico, espécie de Constituição local que dará a Santa Cruz mais independência de La Paz em questões tributárias e administrativas. Com o documento aprovado, Santa Cruz poderia reivindicar autonomia para arrecadar impostos, assinar acordos com empresas estrangeiras, outorgar títulos de propriedade de terras e definir políticas nas áreas de educação e segurança, incorporando 43 atribuições atualmente do governo central. Segundo pesquisas, mais de 70% da população deve apoiar o projeto, mas a Corte Nacional Eleitoral e o governo não reconhecem o estatuto e insistem que a votação é ilegal.   Movimentos populares ligados ao governo boliviano ameaçaram impedir o referendo que Santa Cruz, o departamento (Estado) mais rico do país, realiza sobre seu estatuto de autonomia. "Vamos queimar urnas e bloquear a votação nos lugares em que temos força", disse ao Estado Fidel Surco, presidente da Confederação Sindical de Colonizadores da Bolívia, entidade aliada ao partido governista, o Movimento ao Socialismo (MAS). "As elites econômicas e políticas de Santa Cruz querem dividir o país, mas não deixaremos."   Segundo Surco, a resistência ocorrerá a partir de "quartéis de resistência" instalados com respaldo do MAS em pelo menos quatro pontos da região. Um deles será o bairro Plano Três Mil, reduto do partido governista na periferia da capital do departamento, Santa Cruz de La Sierra, onde é grande a população de migrantes de outras regiões do país. Os outros são as localidades de San Julián, Yapacaní e Quatro Camadas. "Se o governo local insistir em enviar urnas e delegados para esses locais, deve ter consciência de que será o responsável pelos confrontos", ameaçou.   Dirigentes do MAS em Santa Cruz organizaram ontem uma passeata contra a autonomia. Um dos objetivos da concentração, que começou no Plano Três Mil e se dirigiu ao centro da cidade, era definir as ações de amanhã. "Por aqui (Plano Três Mil) todos apóiam o presidente Evo Morales, até porque o governador de Santa Cruz, Rubén Costas, e o líder do Comitê Cívico local, Branko Marinkovic, nunca vêm visitar essa área empobrecida da cidade", explicou Osvaldo Arteaga, diretor da divisão urbana do MAS no departamento. "O referendo é apenas um instrumento das elites locais para enfraquecer o governo Evo."   No início da semana, os planos para uma grande passeata dos movimentos sociais pró-Evo até Santa Cruz foram suspensos a pedido do presidente, que disse querer evitar confrontos com a oposição. A verdade, porém, é que a nova estratégia do MAS ainda deixa aberta essa possibilidade. Fernando Castedo, porta-voz da Corte Eleitoral Departamental de Santa Cruz, admitiu que os protestos e ações programados pelos movimentos governistas podem prejudicar a votação. Há também o risco de confrontos com integrantes da União Juvenil Crucenha, organização ligada ao Comitê Cívico de Santa Cruz que promete reunir milhares de jovens para fazer a segurança da votação.   Responsável por 30% do PIB da Bolívia e 72% da produção agrícola do país, Santa Cruz é o principal reduto da oposição regional a Evo. A demanda por mais autonomia é histórica, mas os dirigentes locais resolveram aprovar unilateralmente o estatuto autonômico depois que deputados governistas da Assembléia Constituinte aprovaram, em novembro, uma nova Constituição para o país numa votação sem a oposição.   (Com Ruth Costas, de O Estado de S. Paulo)

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