Evo Morales redobra ofensiva contra oposição na Bolívia

Em entrevista, presidente reafirma respaldo da população para reformas e critica 'velha oligarquia de direita'

IGNACIO BADAL, REUTERS

01 de dezembro de 2007 | 11h28

Em meio a uma das piores crises políticas de seus dois anos à frente do governo, o presidente boliviano, Evo Morales, afasta a pressão da oposição apoiando-se no respaldo que afirma ter dos cidadãos e não abranda suas críticas contra o que chama de "a velha oligarquia de direita".   Veja também: Especial: Tensão na América do Sul  Dois dias apenas após uma greve que parou metade da Bolívia, organizada por uma oposição que exige que o presidente perdão por supostas ilegalidades cometidas para fazer aprovar a nova Constituição, o líder se nega a ceder. "Não tenho nada pelo qual pedir perdão. Pelo contrário: quem foi que mobilizou parte do povo com ingerência internacional e atacou a Assembléia Constituinte? São essas pessoas que têm que pedir perdão", disse em entrevista à Reuters o primeiro presidente indígena da Bolívia, apontando para a oposição. Os últimos meses do mandato de Evo vêm sendo marcados por uma virulenta disputa retórica com a oposição do lado oriental do país, a zona mais rica e fértil, que levanta a bandeira da autonomia e que parou na quarta-feira. O empobrecido lado ocidental é a base de apoio do presidente boliviano, que, com a nova Constituição, quer refundar o país mais pobre da América do Sul e acabar com séculos de marginalização da maioria indígena. Foi a determinação - ou, para seus opositores, a teimosia - do líder cocaleiro em levar adiante seu grande projeto de "revolução" constitucional, que inclui a reeleição permanente do presidente e exclui as privatizações, o que provocou a ira da direita. Esse repúdio se aprofundou no fim de semana passado, quando a Assembléia Constituinte cumpriu o primeiro grande passo da carta magna, ao aprová-la em assembléia geral num campo militar da cidade colonial de Sucre, ao sul de La Paz. A aprovação se deu em meio a controvérsia, já que a Constituição foi endossada unicamente por membros da Assembléia favoráveis ao governo, e em meio a uma violência que deixou mortos e feridos.   Violência em Sucre A oposição culpou o governo pelas mortes e lançou um chamado à desobediência civil contra o Executivo. O primeiro passo dessa desobediência foi a paralisação da quarta-feira, estratégia que a oposição posteriormente batizou de "resistência civil mobilizada". "Falam de democracia e respeito às normas, mas convocam à desobediência. Se você fala em desobediência, não tem moral alguma para falar em democracia", respondeu Evo às acusações da direita de que tinha "suas mãos manchadas do sangue" das vítimas de Sucre. Evo se aprofundou sobre a tragédia da cidade colonial. Indagou-se por que a Justiça ainda não recebeu um relatório forense sobre os mortos e sugeriu que ela possa estar tentando esconder os culpados, por ter conexões com a direita. "O poder Executivo não tem porque pressionar o Judiciário, mas as autoridades judiciais foram nomeadas pelos governos neoliberais", afirmou. Apesar das invectivas lançadas de um lado a outro, as duas partes chamaram ao diálogo. O governo enviou aos prefeitos de todos os departamentos uma carta convidando a uma reunião na terça-feira para discutir os pontos de discórdia. Com isso, Evo espera pacificar os rebeldes. Questionado sobre o que pode acontecer se os representantes dos cinco departamentos opositores, que lideraram a paralisação da quarta-feira, não participarem da reunião, Evo responde: "Se não vierem, isso será problema deles". "Que a população julgue quem não quer o diálogo, quem busca apenas a violência e o confronto."

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