Expansão do poder militar intriga os cubanos

A reforma ministerial anunciada na semana passada pelo presidente Raúl Castro gerou entre muitos cubanos uma preocupação com o crescente papel dos militares no governo e sobre como isso pode afetar seu cotidiano e seu futuro. A reforma, a mais profunda desde que Raúl foi efetivado como presidente em substituição a seu irmão Raúl, em fevereiro de 2008, colocou mais generais e ex-oficiais no governo, enquanto removeu duas figuras civis - Felipe Pérez Roque e Carlos Lage - muito associadas a Fidel. As mudanças inclinaram ainda mais em favor dos militares a composição do departamento político do Partido Comunista e do Conselho de Estado, formado por sete integrantes. Lage era um dos três membros civis. Embora o governo tenha atribuído a reforma aos esforços de tornar a administração mais eficiente, as ruas de Cuba foram tomadas por especulações a respeito do impacto que isso poderia ter sobre as políticas oficiais e o cotidiano da população. Há inclusive quem manifeste o temor de que a militarização do regime possa ameaçar ou retardar medidas do novo governo norte-americano para melhorar as relações entre Washington e Havana. "Todo mundo está falando sobre a militarização do governo e o que isso pode significar", disse uma moradora do bairro de La Lisa, na capital, que pediu para não ser identificada. "Alguns temem que seja mais difícil resolver problemas no mercado negro, outros que (o presidente dos EUA, Barack) Obama possa não relaxar as restrições às remessas (financeiras) e às viagens." Obama já deixou claro que é favorável à redução dos limites para viagens de reunião familiar e remessas de dinheiro de imigrantes cubanos para seus parentes na ilha. Mas afirmou que o embargo comercial norte-americano, em vigor há 47 anos, deve permanecer, como forma de pressão para a democratização de Cuba. Alguns trabalhadores cubanos se perguntam se as reformas nos altos escalões se repetirão também nos níveis mais baixos do sistema unipartidário e economicamente centralizado de Cuba. "Todo mundo na fábrica está preocupado se cabeças vão rolar, dos diretores para baixo", disse um funcionário de uma fábrica administrada pelo Ministério do Aço e da Metalurgia, pasta que desde a semana passada está sob o comando do general Salvador Pardo Cruz, em substituição ao um ministro civil.

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