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Falta de índices oficiais impede que Venezuela meça tamanho de sua crise

Falta de índices oficiais impede que Venezuela meça tamanho de sua crise

Sem dados sobre inflação, contas públicas, desemprego e crescimento da economia, cresce no país temor da hiperinflação; projeções de consultorias privadas indicam que venezuelanos podem terminar o ano com alta de preços de até 189%

Luiz Raatz, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2015 | 03h30

A Venezuela atravessa uma das piores crises econômicas de sua história recente sem que o público saiba qual a exata dimensão dela. Dados como inflação, escassez, PIB e desemprego, ainda não foram publicados este ano pelo governo do presidente Nicolás Maduro, após terem sido divulgados de maneira intermitente ao longo de 2014. Em meio ao blecaute informativo, economistas privados debatem se o país já entrou num processo hiperinflacionário.

O último dado do Banco Central da Venezuela (BCV) disponível sobre a inflação é referente ao mês de novembro e foi publicado com um atraso de 20 dias. Segundo o BCV, a inflação daquele mês foi de 4,5 %, e de 63,6% no período de 12 meses. Desde então, o BCV deixou de publicar o índice da inflação de dezembro, janeiro, fevereiro, março, abril, maio e junho. 

O índice de escassez, que mede em que grau produtos da cesta básica estão em falta no país, foi divulgado pela última vez em março do ano passado, quando três de cada dez produtos estavam em falta. A última atualização do PIB é do terceiro trimestre de 2014, quando o BCV já apontava para uma retração na economia de 2,3%. O mesmo ocorre com os dados da balança de pagamentos. A taxa de desemprego deixou de ser publicada em dezembro, quando estava em 5,5%. 

“Além do PIB e das contas externas, o saldo em transações correntes e os ativos do setor público também não têm os dados divulgados desde setembro do ano passado. Não temos os dados anuais das contas externas e das contas nacionais, nem os dados de inflação e desemprego deste ano”, disse ao Estado o economista Orlando Ochoa, da Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas. “E a ordem para não publicar esses dados veio diretamente do presidente Nicolás Maduro, que pensa: ‘Se as pessoas não veem o indicador, não veem o problema e não há críticas’.”

Maduro herdou de seu antecessor, Hugo Chávez, morto em 2013, uma economia já prejudicada pela expansão do gasto público, que corroeu as reservas em moeda forte da Venezuela. Desde então, diminuiu a oferta de dólares para a iniciativa privada, o que aumentou a escassez e a inflação. 

Com a queda do preço do petróleo a partir da metade de 2014 no mercado internacional, o líder venezuelano viu em questão de meses a receita do Estado cair pela metade, o que o levou a apertar ainda mais o controle sobre o câmbio e aumentar o financiamento da dívida pública via impressão de papel-moeda no BCV.

O chavista, no entanto, diz que é alvo de uma guerra econômica” movida por setores da oposição e da burguesia venezuelana. “A ocultação desses dados macroeconômicos tem como objetivo manter a retórica da guerra econômica”, afirmou Ochoa. 

Apenas dois dados importantes seguem sendo publicados frequentemente: emissão de papel-moeda e o volume de reservas internacionais. 

Na semana passada, a ONG Transparência Venezuela entrou com um pedido no Tribunal Supremo de Justiça para que os dados fossem publicados. Segundo a entidade, a omissão é inconstitucional. “O BCV deverá prestar informação periódica sobre as variáveis macroeconômicas do país. O descumprimento sem causa justificada desse objetivo será punido com a remoção de sua direção e as sanções previstas em lei”, diz o Artigo 319 da Carta. 

Hiperinflação. Apesar da falta de dados, economistas venezuelanos e de bancos e entidades internacionais conseguem fazer estimativas sobre o avanço da crise graças a uma combinação de dados fornecidos por empresas privadas, pesquisa de campo e informações extraoficiais passadas por funcionários de carreira do BCV, contrários à diretriz de falta de transparência. 

O cenário é cada vez mais pessimista. Ainda não há consenso sobre o tema, mas o risco de hiperinflação é cada vez mais palpável no país. A consultoria Econométrica prevê para 2015 uma inflação de 189% e uma retração do PIB de 8,6%. O FMI, com dados mais conservadores, projeta uma inflação de 96,8% e uma queda de 7% do PIB. Ochoa estima uma inflação anual de 200% e uma retração de 9% no PIB.

“De janeiro a junho de 2015, a inflação oficial – que já inclui os produtos com preço congelado – 68,2%. Em 12 meses, esse valor é de 120,7%. Mas esse valor é subestimado porque não leva em conta os preços cobrados com ágio no mercado negro”, argumentou Ochoa. 

Outros economistas, no entanto, dizem que para entrar em hiperinflação, a alta de preços mensal tem de ser de 50% – atualmente está ao redor de 10%. “Ainda não estamos na hiperinflação, ainda dá para evitar, mas, lamentavelmente, não creio que o governo compreenda o problema nem saiba como resolvê-lo”, disse o economista Francisco Ibarra, da Econométrica. 

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