Família Pinochet diz sofrer 'perseguição política' no Chile

Filhos do ex-ditador afirmam ter sofrido humilhações e ameaçam recorrer a tribunais internacionais

Agência Estado e Associated Press,

08 de outubro de 2007 | 19h04

Dois dos cinco filhos do ex-ditador Augusto Pinochet, Lucía e Marco Antonio, processados por malversação de US$ 8,2 milhões dos cofres públicos chilenos, declararam-se nesta segunda-feira, 8, "presos políticos" e pensam em recorrer aos tribunais internacionais. Veja TambémEntenda o escândalo que envolve a família  Família de Pinochet deixa prisão no ChileJuiz dá liberdade provisória a familiares de PinochetJuiz manda prender familiares e colaboradores de Pinochet A viúva de Pinochet, seus cinco filhos e outras 17 pessoas, incluídos dois generais jubilados e dois coronéis ainda na ativa, começaram a ser processados na última quinta-feira, 4, pelo juiz Carlos Cerda. Os 23 suspeitos são acusados de malversação de US$ 8,2 milhões provenientes de gastos reservados ao governo durante o período em que Pinochet ainda era ditador do Chile, entre 1973 e 1989. As três filhas e os dois filhos de Pinochet foram detidos a mandados a celas comuns, enquanto os militares ficaram presos em um quartel do Exército do Chile. A viúva de Pinochet e um general se internaram em um hospital militar, após tomarem conhecimento sobre o início do processo.  "Estávamos isoladas, quando chegamos à cela não tínhamos nada, não tínhamos o mínimo. No banheiro não tinha sabonete e não tinha papel higiênico, não tinha cobertor na cama da cela, nada," disse Lucía no domingo em um programa de televisão. Lucía, Verónica e Jacqueline passaram duas noites em celas individuais, isoladas das outras mulheres que cumprem penas na prisão do Centro de Orientação Feminina. Seus irmãos Augusto e Marco Antonio dividiram uma cela em um presídio masculino. O governo reagiu. "Aqueles que se fazem chamar presos políticos e perseguidos políticos estão sendo levados a um julgamento com um juiz que todos conhecem, puderam contar com a presença dos seus advogados de defesa e tiveram cobertura total da imprensa. Isso tudo é muito mais do que tiveram milhares de chilenos durante o governo de Pinochet," disse o ministro Ricardo Lagos, porta-voz do governo, referindo-se às cerca de 3 mil pessoas mortas durante a ditadura de Pinochet. Um dos filhos do ex-ditador, Marco Antonio, queixou-se à televisão chilena, na noite de domingo. "Fui capturado violentamente, como um delinqüente, na mira de uma pistola. Fui obrigado a entrar em um veículo da polícia," disse Marco Antonio Pinochet. "Nós fomos presos políticos. Não podiam ter detido Marco Antonio," reclamou Lucía Pinochet. "Falamos com os advogados sobre a possibilidade de ir a um tribunal internacional, seria algo mais justo, porque a verdade é que com juízes que recebem prêmios para nos perseguir e recebem aplausos internacionais para fazer isso, é quase como se eles fossem subornados para nos perseguir, nos encarcerar e continuarem com isso," disse Marco Antonio. Críticas a juiz O clã Pinochet culpa o juiz Cerda de buscar publicidade com seus processos. Cerda está em Washington, onde na terça-feira, 9, receberá um prêmio da Fundação Grubert. Em plena ditadura, Cerda recebeu uma reprimenda e foi suspenso por dois meses da sua função por recusar-se a fechar um processo por violações aos direitos humanos contra 40 integrantes da Força Aérea do Chile. Os Pinochet também acusam o governo da presidente Michelle Bachelet de lhes mover o processo por corrupção justamente quando a popularidade da mandatária caiu a 35%, o menor nível em seus 19 meses de governo. Os tribunais chilenos analisarão nesta semana os recursos judiciais feitos pelos advogados, que tentam anular os processos de corrupção contra a família Pinochet. Justiça na ditadura A ditadura de Pinochet, que começou com um golpe contra um governo democrático em 1973, matou mais de 3 mil chilenos, dos quais o paradeiro de 1,2 mil é desconhecido até hoje.  Uma das piores matanças realizadas durante o regime foi obra da chamada "Caravana da Morte", esquadrão organizado por militares chilenos para eliminar antigos partidários do governo derrubado. Em outubro de 1973, o esquadrão, que viajava pelo país em um helicóptero Puma, assassinou 120 pessoas em prisões, com tiros de pistola e armas brancas.  Já os milhares de presos do regime eram mantidos em condições desumanas nas prisões ou no Estádio Nacional do Chile, vítimas freqüentes de torturas e maus-tratos e privados de alimentos e de sono.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.