Fantasma da crítica ronda a Cuba de Raúl Castro

O fantasma da crítica ronda Cuba. E quemo deixou sair do armário foi Raúl Castro, que desde quesubstituiu no poder o convalescente irmão Fidel, há um ano emeio, insiste que a crítica é "essencial para avançar". Os últimos a se manifestar foram os estudantes daUniversidade de Ciências Informáticas (UCI), que crivaram opresidente do Parlamento, Ricardo Alarcón, com rajadas deperguntas inusualmente diretas e incômodas. Um vídeo do encontro mostra como um estudante questiona acirculação de duas moedas e restrições para que os cubanosviajem para fora do país ou se hospedem em hotéis reservados aturistas. "Eu quero que se explique o que é um problema de conjunturae o que é um problema de conceito", disse Eliécer Avila, nagravação de 52 minutos que circula na ilha. A reunião entre Alarcón e 200 estudantes foi transmitida aovivo em circuito fechado aos 10.000 estudantes da UCI, umprojeto pessoal de Fidel Castro. "Por que o povo de Cuba (...) não conta com a possibilidadeviável de ir a hotéis ou viajar a diferentes lugares domundo?", perguntou Avila, dizendo que ele, por exemplo, sonhavisitar o lugar da selva da Bolívia onde caiu o guerrilheiroErnesto "Che" Guevara. Alarcón lhe recorda os avanços sociais da revolução de 1959e diz que seria bom se os cubanos pudessem viajar e ver "omundo real", porque assim ninguém desejaria emigrar da ilha. "Se todo o mundo, os 6 bilhões de habitantes, pudessemviajar para onde quisessem, o congestionamento nos ares doplaneta seria enorme. Os que viajam são realmente uma minoria",afirmou. Alarcón, um dos principais dirigentes do governo cubano, sedeclara um "perfeito ignorante" em relação aos mecanismos paraeliminar a circulação de duas moedas. "Não tenho resposta", diz sobre a pergunta de por quê asautoridades proibiram o acesso a serviços estrangeiros decorreio eletrônico e chat que não podem controlar, como Yahooou Gmail. No vídeo, o estudante questiona também a falta de um"intercâmbio mais aberto" entre as autoridades e o povo. O governo justifica as limitações de acesso à Internet peloembargo comercial dos Estados Unidos, que impede o país de seconectar a cabos de fibra ótica que passam a poucos quilômetrosde suas costas. PROIBIÇÕES Raúl Castro reconheceu em dezembro passado, ante oParlamento, que em Cuba há um "excesso de proibições (...) quefazem mais danos do que benefício". Foi, disse ele, uma das queixas feitas pelos cubanos em umamplo debate nacional que ele mesmo promoveu, no fim de 2007,para diagnosticar os problemas do socialismo. Ao coro de críticas contra as restrições em Cuba, se somouesta semana o compositor Silvio Rodriguez, um homemcomprometido com a revolução, para quem Cuba vive um "momentode mudança". "Estou esperando que este seja um processo de transição quenos leve a coisas positivas", disse a jornalistas. O debate na UCI foi a segunda oportunidade em poucos diasem que os cubanos questionaram as autoridades. Em janeiro, centenas de cubanos que trabalham para empresasestrangeiras, os mais bem pagos da ilha, desafiaram abertamentea decisão do governo de começar a lhes cobrar impostos sobreseus rendimentos não-declarados de moeda forte. Um vídeo de uma reunião com funcionários do Ministério deFinanças mostra alguns empregados criticando a "base legal" dadecisão e sendo aplaudidos efusivamente.

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