Farc ameaçam Panamá e exigem libertação de guerrilheiros

Guerrilha colombiana faz primeira ameaça de atacar país vizinho após libertar mais quatro reféns

Agências internacionais,

28 de fevereiro de 2008 | 07h32

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) ameaçaram na quarta-feira, 27, iniciar uma campanha de seqüestros e ataques ao Panamá caso o governo do país não liberte até o dia 1 de março seis combatentes do grupo capturados no fim de semana passado. Esta é a primeira vez na história recente que as Farc ameaçam atacar um país vizinho.   Veja também: Farc libertam mais 4 reféns, diz Cruz Vermelha Filha se diz 'angustiada' com estado de Betancourt Por dentro das Farc  Reféns colombianos: do seqüestro à liberdade Quem são os 4 reféns libertados na Colômbia   Um comandante guerrilheiro identificado como Bercerro disse que o governo panamenho "tem até 1 de março próximo, às 12h, para libertar os companheiros seqüestrados". "Se isto não se cumprir, temos instruções de fazer reféns membros da polícia nacional, funcionários ou políticos locais, a fim de forçar um intercâmbio. Para isto, tenho autorização de utilizar a força, a equipe e as ações necessárias", acrescentou. O governo do Panamá afirmou que não comentará o assunto neste momento.   O governo panamenho afirmou que não tem certeza sobre a veracidade do comunicado. "Não faremos nenhuma observação sobre o conteúdo, já que não há nenhuma certeza sobre a sua origem", afirmou o ministro do Governo e Justiça, Daniel Delgado.   Representantes do governo informaram que os seis colombianos pertencem às Farc, mas não foram seqüestrados como diz o comunicado atribuído ao grupo. Eles teria sido detidos por autoridades competentes por violar a lei panamenha e por agredir policiais nacionais que tentavam lhes dar ajuda humanitária nos momentos em que precisavam".   As Farc libertaram na quarta mais quatro reféns que estavam há mais de seis anos em seu poder. Os ex-senadores Gloria Polanco, Luis Eládio Pérez e Jorge Eduardo Gechem e o ex-deputado Orlando Beltrán foram entregues a autoridades venezuelanas e representantes da Cruz Vermelha Internacional perto da localidade de El Retorno, na região do Guaviare, na Colômbia.   Os ex-congressistas soltos podem ser os últimos reféns que a guerrilha libertará de maneira unilateral, antes que as regras de um novo acordo humanitário sejam estabelecidas, indicou o grupo rebelde. Imediatamente após a entrega dos reféns, as Farc emitiram um comunicado reiterando a exigência de que o governo colombiano realize uma retirada militar em uma zona que abrange 750 km2 para que um acordo humanitário seja firmado. A retirada militar é o principal ponto de controvérsia entre o governo de Álvaro Uribe e a guerrilha.   Essa foi a segunda libertação unilateral de reféns da guerrilha neste ano. Em janeiro, foram soltas a ex-senadora Consuelo González e Clara Rojas, assessora da ex-candidata à Presidência da Colômbia Ingrid Betancourt.   Os Farc ainda mantêm em seu poder 40 reféns políticos, que a guerrilha se diz disposta a trocar por 500 rebeldes presos. Desses seqüestrados, 33 são militares e 7 são civis. "Chama a atenção o fato de a guerrilha só ter libertado civis", disse ao Estado o cientista político Carlos Medina, da Universidade Nacional da Colômbia. "Provavelmente ela espera com essas libertações conseguir mais legitimidade e reconhecimento internacional - e se os seus reféns forem principalmente militares, ela terá mais argumentos para pleitear o status de combatente."   Ingrid Betancourt   Luis Eládio Pérez disse ter visto Ingrid há 23 dias. Segundo ele, ela tem um problema no fígado e seu estado de saúde é crítico. "A guerrilha se irritou com Ingrid", afirmou. "Ela tem problemas físicos e está sendo muito maltratada." Com a libertação de Gloria, Ingrid passa a ser a única mulher do grupo de reféns políticos da guerrilha.   A filha de Ingrid Betancourt, Melanie Delloye, se mostrou nesta quinta-feira "extremamente angustiada" com o estado de sua mãe. "É extremamente inquietante, e sei que o tempo está realmente contado. Mamãe está viva, mas não sei por quanto tempo", desabafou a jovem.   O presidente venezuelano, Hugo Chávez, pediu ao líder das Farc, Manuel Marulanda, que ordene com urgência a transferência da ex-candidata enquanto sua libertação segue sendo negociada. Astrid Betancourt, irmã de Ingrid, disse que, segundo informações transmitidas pela senadora colombiana Piedad Córdoba na semana passada, a guerrilha estava transferindo a seqüestrada para os acampamentos onde se encontram os reféns americanos.   "Talvez tenha sido nessa ocasião que Luis Eladio Pérez a tenha visto", disse Astrid. "Ele (Luis Eladio Pérez) pôde ver o estado de Ingrid, em um grupo de prisioneiros que lhe são extremamente hostis, e que se irritam com ela porque a culpam por estarem seqüestrados", explicou Astrid Betancourt.   Ela afirmou que a guerrilha, por sua parte, "não é clemente" com Ingrid, por ter tentado fugir em diversas ocasiões, tendo sido alvo de represálias. Por sua vez, o ex-marido da refém, Fabrice Delloye, confirmou as declarações divulgadas pela ex-refém Gloria Polanco, de que Ingrid Betancourt sofre de hepatite B.   (Com Ruth Costas, de O Estado de S. Paulo)

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