Farc estão infiltradas na 'alta esfera' do Brasil, diz revista

E-mails em computador de ex-líder rebelde mostram ligações com o governo Lula, afirma publicação colombiana

Efe,

31 de julho de 2008 | 16h30

A presença das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) no Brasil "chegou até as mais altas esferas" do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao PT, aos líderes políticos brasileiros e ao poder Judiciário, afirma reportagem da revista colombiana Cambio. A conclusão foi tirada de supostos e-mails encontrados no computador do ex-porta-voz internacional das Farc Raúl Reyes, diz a última edição da revista, que entrou em circulação nesta quinta-feira, 31.   Veja também: Políticos citados por revista negam ligações A matéria da revista colombiana (em espanhol) Por dentro das Farc  Histórico dos conflitos armados na região      A revista cita a entrevista que o ministro da Defesa colombiano Juan Manuel Santos concedeu ao Estado, publicada no domingo, 27, na qual ele admite que a Colômbia informou o governo Lula sobre o tema. O governo colombiano, continua a revista colombiana, "usou seletivamente os arquivos do computador de Raúl Reyes."   A publicação acrescenta que com "Equador e Venezuela, (os arquivos) foram usados para colocar em contradição (o presidente venezuelano Hugo) Chávez e (o presidente equatoriano Rafael) Correa, hostis a (o chefe de Estado colombiano Álvaro) Uribe."   Com o Brasil, "a articulação foi feita embaixo da mesa para não comprometer Lula, que se mostrou mais hábil e menos combativo com a Colômbia", destacou a revista Cambio.   Nos e-mails de Reyes - cujo nome verdadeiro era Luis Edgar Devia e que foi morto por tropas colombianas em solo equatoriano em 1.º de março - são mencionados "cinco ministros, um procurador-geral, um assessor especial da Presidência, um vice-ministro, cinco deputados, um vereador e um juiz superior" brasileiros, acrescentou a revista.   Algumas mensagens foram escritas durante o processo de paz da Colômbia entre 1998 e 2002 em San Vicente del Caguán, durante o governo do então presidente colombiano Andrés Pastrana, "e envolvem um prestigioso juiz e um alto ex-oficial das Forças Armadas brasileiras."   A mesma reportagem diz que "a expansão das Farc na América Latina não incluiu apenas funcionários dos governos de Venezuela e Equador, mas também comprometeu importantes dirigentes, políticos e altos membros do PT". A Cambio cita o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, o ex-ministro de Ciência e Tecnologia Roberto Amaral, a deputada distrital Erika Kokay (PT) e o chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho.   Também são mencionados nesses e-mails o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, o assessor especial de Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, o subsecretário de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Perly Cipriano, o secretário de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, e o assessor presidencial Selvino Heck.   A Cambio disse que teve acesso aos 85 e-mails de Reyes entre fevereiro de 1999 e fevereiro de 2008 enviados e respondidos pelo líder máximo das Farc, Manuel Marulanda ou Tirofijo, cujo nome verdadeiro era Pedro Antonio Marín e que morreu este ano.   'Cura Camilo'   Ainda segundo a Cambio, há mensagens de Reyes para o chefe militar das Farc, Mono Jojoy - cujo nome verdadeiro é Jorge Briceño -, e para Francisco Antonio Cadena Collazos - conhecido como padre Olivério Medina e "Cura Camilo" e que atua como delegado das Farc no Brasil - e de todos eles com dois homens identificados como Hermes e José Luis.   Medina, preso em São Paulo em agosto de 2005, vivia no Brasil há oito anos e foi beneficiado com uma proteção especial por ser casado com uma brasileira. Em 2006, o Comitê Nacional para Refugiados (Conare) concedeu a Camilo o status de refugiado, decisão que pesou bastante para o Supremo Tribunal Federal (STF) negar seu pedido de extradição para a Colômbia. Camilo foi "chefe de imprensa" da guerrilha colombiana no início dos frustrados diálogos de paz em San Vicente del Caguán.   O ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio, atualmente no PSOL, também é citado na reportagem como o representante do PT que teria pedido a intervenção do ministro das relações Exteriores Celso Amorim no caso de Olivério Medina. Em um e-mail de 22 de fevereiro de 2004, 'José Luis' diz para 'Reyes' que "por intermédio do legendário líder do PT, Plínio de Arruda Sampaio, chegamos a Celso Amorim".   Procurado pelo estadao.com.br, Arruda confirmou ter intercedido por Medina. "Ele estava sendo perseguido, podia ser mandado de volta para a Colômbia e ser preso ou coisa pior. Então eu liguei no ministério e pedi que o ministro o recebesse", disse. "Em toda minha vida pública eu tento interferir nesses casos. Eu fui exilado e sei como é ficar sem documentos em um país. Arruda diz desconhecer ligações do PT com as Farc.   'Dossiê brasileiro'   O chamado "dossiê brasileiro" diz que estas mensagens "revelam a importância do Brasil na agenda externa das Farc (...) para dar suporte à estratégia continental da guerrilha". As Farc, acrescenta a Cambio, aproveitaram "a conjuntura criada pela chegada de Lula e do influente PT ao poder para chegar até as mais altas esferas do governo."   A Cambio também disse que, "apesar de os e-mails serem apenas indícios de um possível comprometimento do governo Lula com as Farc - pois nenhum dos funcionários enviou mensagens pessoais a algum dos membros do grupo guerrilheiro - despertam muitas dúvidas que exigem uma resposta do governo" brasileiro.   Em depoimento à Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados em abril, Garcia disse repudiar os métodos usados pelas Farc, como seqüestros, ataques terroristas e uso de dinheiro do narcotráfico.   Na ocasião, Garcia afirmou que o Brasil tem que assumir uma posição de não interferir no conflito colombiano, mas que também não pode ficar indiferente. Recentemente, Garcia classificou como "irrelevantes" as mensagens encontradas no computador periciado pelo governo colombiano.   Consultada pelo estadao.com.br, a assessoria de imprensa da Presidência da República disse que não se pronunciará sobre a reportagem.

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