Farc tentavam obter material radioativo, diz Colômbia

Vice-presidente colombiano diz na ONU que guerilha estaria disposta a pagar US$ 2,5 mi por quilo de urânio

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

04 de março de 2008 | 08h05

O vice-presidente da Colômbia, Francisco Santos Calderón, acaba de anunciar em discurso na ONU que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) estariam com a intenção de obter material radioativo. Em entrevista ao Estado, Santos afirmou que encontrou nos computadores das Farc cartas entre comandantes e Raúl Reyes, morto no último sábado, indicando que o grupo teria recursos financeiros para adquirir 50 quilos de urânio. "A idéia de ter um grupo terrorista com material radioativo é de deixar qualquer um preocupado", afirmou Santos.   Veja também:  Dê sua opinião sobre o conflito   Repercussão na imprensa internacional      Por dentro das Farc  Entenda a crise entre Colômbia, Equador e Venezuela  Colômbia deve invocar lei anti-terror da ONU na OEA Equador rompe relações diplomáticas com a Colômbia Colômbia deve 'pedido de desculpa' ao Equador, afirma Amorim Ataque no Equador frustra liberação de Betancourt, diz Correa Análise: 'É possível que as Farc se desarticulem'     "Segundo a carta, as Farc estariam dispostas a pagar US$ 2,5 milhões por cada quilo. Estamos descobrindo coisas surpreendentes", afirmou. Santos ainda contou ao Estado que os computadores foram achados de fato nos acampamentos bombardeados pelo exército colombiano. "Não sabemos para o que esse urânio seria utilizado nem de que país viria".   O ministro da Justiça do Equador, Gustavo Jalkh, afirmou que achava improvável que um bombardeio pudesse matar soldados e destruir um acampamento, mas que dois computadores fossem preservados. "Precisamos saber a verdade. Isso tudo, inclusive as informações sobre as Farc, me parece distrações do governo colombiano para fugir do ponto principal, que é a agressão ao território equatoriano", afirmou o ministro que está em Genebra para reuniões na ONU. Já o vice-presidente colombiano insiste que os computadores foram mesmo encontrados.   Denúncias colombianas   O chefe de polícia da Colômbia, general Oscar Naranjo, disse na segunda-feira que documentos encontrados no computador de Raúl Reyes, número 2 das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) morto no sábado em território equatoriano, indicam que a Venezuela pagou recentemente US$ 300 milhões ao grupo guerrilheiro colombiano, talvez em troca da libertação de seis reféns. O dinheiro foi mencionado em uma mensagem de 14 de fevereiro no laptop de Reyes.As declarações foram feitas um dia após o Equador acusar a Colômbia de violar sua soberania, bombardeando e invadindo seu território para resgatar o cadáver de Reyes e de outros 16 rebeldes. O incidente enfureceu o Equador e a Venezuela, que enviaram tropas à fronteira com a Colômbia. O Equador retirou seu embaixador em Bogotá, expulsou o representante diplomático da Colômbia e cortou relações com o país vizinho. No domingo, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, prometeu que a Venezuela responderá militarmente se a Colômbia violar suas fronteiras.A entrevista coletiva de Naranjo elevou ainda mais a tensão política na região causada pela operação militar que resultou na morte de Reyes. Segundo ele, outros documentos também sugerem que o presidente equatoriano, Rafael Correa, tem profundas ligações com as Farc - uma acusação que o Equador nega. Ele divulgou os fax de duas cartas nas quais Reyes fala a outros membros da cúpula das Farc sobre as reuniões que manteve com o ministro equatoriano de Segurança, Gustavo Larrea, em nome do presidente Correa.   As cartas são de 18 de janeiro e 28 de fevereiro, um dia antes de Reyes ser morto. No primeiro texto, Larrea envia saudações de Correa a Manuel Marulanda, líder das Farc, e manifesta "o interesse do presidente de oficializar as relações" com a direção da guerrilha. Na segunda carta, Reyes diz ter conversado com Larrea sobre a troca de reféns, a situação da política franco-colombiana Ingrid Betancourt e o papel de Chávez na libertação dos seqüestrados. Larrea confirmou o encontro, para tratar da situação dos reféns.   Outros documentos mostram que os rebeldes tinham interesse em comprar urânio, disse Naranjo. "Quando eles mencionam negociações para 50 quilos de urânio, isso significa que as Farc estavam dando grandes passos no terrorismo mundial para tornar-se um agressor global. Não estamos falando de guerrilha doméstica, mas terrorismo transnacional", disse, sem dar mais detalhes, em sintonia com a retórica de Washington sobre o combate ao terrorismo. A Colômbia é o principal aliado na América Latina dos EUA, que fornecem anualmente US$ 700 milhões a Bogotá, entre ajuda militar e cooperação para programas sociais.   Outro arquivo do computador de Reyes sugere que os rebeldes têm ligações financeiras com Chávez desde 1992. Na ocasião, Chávez estava preso por liderar uma tentativa de golpe. "Numa mensagem, Reyes fala sobre como Chávez ficou grato pelos 100 milhões de pesos (US$ 150 mil na época) entregues a ele quando estava na prisão", disse Naranjo. Em outra correspondência, Chávez aparentemente se comprometia a entregar fuzis usados às Farc. O governo colombiano pedirá à Organização do Estados Americanos (OEA), que se reúne nesta terça em sessão de emergência em Washington, que investigue o envio do dinheiro e de armas às Farc.   (Com agências internacionais)    

Tudo o que sabemos sobre:
FarcOEAColômbiaONUVenezuelaEquador

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.