Favorita, direita tenta tirar Concertación do poder no Chile

Piñera tenta romper 20 anos de hegemonia esquerdista desde a queda de Pinochet, mas teme reação

Ruth Costas, enviada especial de O Estado de S. Paulo,

16 de janeiro de 2010 | 20h47

Piñera encerrou a campanha com comício na última quinta-feira. Foto: Julio Queirolo/Efe

SANTIAGO- Se confirmada a previsão da última pesquisa eleitoral, a votação deste domingo, 17, deve ser a mais apertada dos últimos 20 anos no Chile. O candidato direitista, Sebastián Piñera, lidera as pesquisas e tem a possibilidade de acabar com 20 anos de hegemonia da Concertação, a coalizão de centro-esquerda que governa o Chile desde o fim do regime Augusto Pinochet (1973-1990), dando à direita chilena sua primeira vitória numa votação presidencial em cerca de 50 anos.

Desde dezembro, quando Piñera passou para o segundo turno como favorito e com quase 15 pontos porcentuais de diferença em relação ao segundo colocado, o governista Eduardo Frei, seus aliados estavam confiantes em uma vitória confortável. E, de fato, até a semana passada, as pesquisas davam ao candidato direitista uma vantagem de 5 pontos.

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No entanto, o cenário sofreu uma reviravolta na terça-feira, com a divulgação do levantamento do Instituto Mori que, apesar de ainda apontar Piñera como favorito, reduzia a vantagem para apenas 1,8 ponto - ou aproximadamente 200 mil votos. Como a margem de erro da pesquisa é de 3 pontos, pelo Mori, os candidatos estão tecnicamente empatados.

Também na terça-feira, o terceiro colocado no primeiro turno, Marco Enríquez-Ominami, candidato independente que obteve 20% dos votos, anunciou seu apoio a Frei após semanas de resistência.

"Esses dois elementos novos deram fôlego aos aliados de Frei e a sua campanha", disse ao Estado Bernardo Navarrete, cientista político da Universidade de Santiago. "Piñera ainda é favorito, mas agora podemos esperar qualquer resultado."

Essa é a primeira vez que a direita chilena consegue chegar ao segundo turno na dianteira de todas as pesquisas (no Chile há mais de dez institutos divulgando sondagens eleitorais). O fenômeno é atribuído, primeiro, ao desgaste da Concertação, após tanto tempo no poder. Depois, a uma capacidade de parte da direita chilena de se renovar, tomando distância do pinochetismo e incorporando em sua agenda discursos da esquerda, como a promessa de investir em programas sociais.

Popularidade

O curioso é que a presidente chilena, Michelle Bachelet, é hoje a líder mais popular da América Latina, com 81% de aprovação. Essa popularidade é atribuída em parte à boa avaliação de seu manejo da crise econômica no Chile. O problema é que Frei, que já foi presidente entre 1994 e 2000, é visto como um dos integrantes da antiga elite política da Concertação e terminou seu mandato mal avaliado por causa das dificuldades em lidar com as repercussões no Chile da crise asiática.

Piñera é um dos principais empresários do país, com um patrimônio de US$ 1,2 bilhão. Ele defende um pouco mais de mercado e um pouco menos de Estado. Seu slogan de campanha foi "mudança", mas, segundo analistas, as diretrizes econômicas e políticas do país não devem sofrer grandes guinadas. "Quando Piñera fala em mudança refere-se mais a alternância de poder", explica o cientista político Robert Funk, da Universidade do Chile. "É mais uma mudança das caras que estão no governo que do seu projeto de desenvolvimento."

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