Fernando Lugo diz que referendo boliviano é inconstitucional

Presidente eleito do Paraguai apoia Evo Morales e afirma que "qualquer um pode fazer um plebiscito"

Efe e Ansa,

06 de maio de 2008 | 13h15

O presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, afirmou nesta terça-feira, 6, que o referendo autônomo realizado no último domingo pelo departamento boliviano de Santa Cruz não é constitucional. A consulta, aprovada com o apoio de mais de 80% dos eleitores, mas considerada separatista pelo governo de La Paz, "não tem nenhuma vinculação com os princípios constitucionais da Bolívia", disse Lugo a jornalistas.  Veja também: Evo acusa EUA de conspirarem em plebiscito  Lugo acrescentou que "qualquer um pode fazer um plebiscito" e que, no futuro, serão vistos "seus resultados e a conotação que pode ter" na Bolívia e na região. "Posso fazer (um referendo) aqui em Assunção, em La Chacarita (bairro da capital), em Ciudad del Este ou em San Pedro (a região mais pobre do país)", disse Lugo. Com mais da metade das urnas do referendo apuradas, o "sim" ao estatuto que prevê autonomia para a região boliviana de Santa Cruz segue vencendo com 85,6%, segundo informações da Corte Departamental Eleitoral. O último relatório da Corte Departamental, divulgado nesta terça em seu site, indica também que a abstenção foi de 34,4%. A Corte contabilizou até o momento 298.410 votos pelo "sim" ao texto autonomista e 50.178 pelo "não". O referendo de Santa Cruz, a região mais rica e povoada da Bolívia, é considerada ilegal pela Corte Nacional Eleitoral e pelo governo de Evo Morales. Por causa dos incidentes violentos que aconteceram durante as votações que deixaram 35 feridos, Morales qualificou o pleito como um "fracasso". O presidente boliviano também questionou as informações divulgadas por vários meios de comunicação e pelas autoridades opositoras regionais, que declaram que o "sim" ao estatuto venceu com mais de 80% de apoio popular. O governo afirma que o texto tem caráter separatista e, além disso, insistiu que a metade da população de Santa Cruz o rejeita, ao afirmar que a abstenção chegaria a 40% e os votos contrários passariam de 10%. Apesar de tudo, Evo convocou todos os governadores regionais, a maioria de oposição, para dialogar sobre uma autonomia "verdadeira", que se encaixe no seu projeto de nova Constituição.  Autoritário A edição do jornal americano The Washington Post afirmou nesta terça que o presidente da Bolívia, Evo Morales, quer impor um governo "autoritário" inspirado no "socialismo venezuelano" que ameaça dividir seu país, e deve negociar com Santa Cruz e outros departamentos que pedem autonomia. "O referendo no maior departamento econômico do país demonstrou que Evi está promovendo uma agenda limitada e divisória que, se continuar avançando, provocará uma divisão política e étnica na Bolívia, que possivelmente levará a uma guerra civil", enfatizou Post em um editorial.  O jornal legitimou o pedidos da classe política de Santa Cruz, que no domingo conseguiu a aprovação de um referendo autonômico, ao sustentar que, junto a outros cinco departamentos, "está lutando para prevenir que Evo imponha sua própria agenda, muito mais radical". Nesse sentido, o jornal acusou Evo de ser um aprendiz do presidente venezuelano, Hugo Chávez, e de "adotar sua versão autoritária do socialismo", cujas políticas estão baseadas em "receitas econômicas catastróficas".  O jornal disse ainda que Evoé um aymara que quer governar apenas para os aymaras e os quéchua, que representam 55% da população e vivem no altiplano boliviano, "às custas do resto do país". O The Washington Post disse que Evo deve falar com a oposição, embora o presidente boliviano já tenha chamado ao diálogo, e enfatizou que deve conceder "mais direitos aos departamentos do mesmo modo que faz com os indígenas".

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