Fernando Lugo toma posse como novo presidente do Paraguai

Chefe de governo enfrenta desafio de reformas e tem como prioridade diminuir a corrupção no país

Agências internacionais,

15 de agosto de 2008 | 10h25

O ex-bispo católico Fernando Lugo assumiu nesta sexta-feira, 15, a Presidência do Paraguai, colocando fim a 61 anos de poder absoluto e ininterrupto do Partido Colorado no país sul-americano. Segundo pesquisas, Lugo assume o cargo com 93% de popularidade.   Veja também: Lula quer evitar discutir Itaipu  Lugo reafirma propriedade de recursos naturais   Lugo recebeu os símbolos de poder - a faixa presidencial e o bastão de comando - das mãos do senador Enrique González, presidente do Congresso. Conforme prometera, o presidente tomou posse vestindo camisa, mas sem terno nem gravata, e calçando sandálias franciscanas. A novidade é que ele cortou a barba branca que cultivou por anos.   "Sim, juro", disse em voz alta o ex-bispo de 57 anos de idade ao prometer perante o Congresso governar o país respeitando a Constituição durante os cinco anos de seu mandato presidencial. Com a posse, Lugo torna-se o 48.º presidente do Paraguai desde a proclamação da república, em 1844.   O recém-empossado fez um emocionado e forte discurso, no qual se comprometeu a combater a pobreza e a corrupção que há décadas prejudicam a sociedade paraguaia. "Hoje termina um Paraguai exclusivo, um Paraguai com fama de corrupto. Hoje se inicia um Paraguai onde as autoridades serão implacáveis contra os ladrões de nosso povo", disse Lugo.   Lugo defendeu a criação de uma sociedade "fundada em princípios de justiça e igualdade", onde "todos cresçam sem exclusão". Citando a cantora argentina Mercedes Sosa, proclamou: "Eu renuncio a viver em um país onde uns não dormem porque têm medo e outros porque têm fome. Por meio de um pacto social, prosseguiu Lugo, será possível construir uma sociedade volte a pensar de maneira coletiva.   Antes de assumir o cargo, Lugo afirmou que abriria mão do salário de presidente de US$ 4 mil e que prefere repassar a quantia para os mais pobres, "porque não necessito do salário para viver modestamente". Lugo afirmou ainda que pretender ter uma gestão de "austeridade e simplicidade". "Vamos gastar equitativamente", afirmou Lugo aos jornalistas.Lugo também comentou que muito cedo rezou pelo país e reafirmou que combaterá a corrupção e "as pessoas que se aproveitaram do fisco".   Participaram da cerimônia, além do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os chefes de Estado da Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Honduras, Taiwan, Uruguai e Venezuela. Participaram também o príncipe Felipe da Espanha e outros representantes de quase cem delegações estrangeiras. O presidente do Congresso colocou no ex-bispo, o sexto governante do Paraguai desde a instauração da democracia, em 1989, após a deposição da ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), uma faixa presidencial bordada por freiras de claustro de uma localidade equatoriana onde serviu como missionário entre 1977 e 1982.   Uma sondagem publicada pelo jornal paraguaio ABC Color nesta sexta aponta que 93% da população tem uma referência "muito boa" de Lugo, 2,4% acreditam que seja "mal ou muito mal" e 3,9% não tem "nenhuma". Segundo o instituto First Análisis y Estúdios, 78% dos paraguaios acham que o novo presidente fará uma boa administração e 70% dos entrevistados acham que ele solucionará o problema do desemprego e da saúde. Porém, metade dos consultados consideram que Lugo reduzirá a corrupção.   Desafios   Lugo governará com o apoio de uma insólita colcha de retalhos política, a Aliança Patriótica para a Mudança (APC), que inclui o partido do ex-general golpista Lino Oviedo, a União Nacional de Cidadãos Éticos (Unace), além de indígenas, movimentos sem-terra, partidos conservadores e setores de centro.   A chegada de Lugo à presidência - após 61 anos de domínio do Partido Colorado - alimenta expectativas tanto dos setores mais humildes quanto do empresariado, que espera uma renovação econômica. Lugo promete combater a pobreza e a corrupção com um gabinete que reflete a heterogeneidade da sua coalizão. O ministro da Economia, Dionisio Borda, por exemplo, foi ministro do governo do presidente Nicanor Duarte, que está deixando o poder. Os camponeses, que apoiaram Lugo ao longo dos últimos anos, consideram o novo presidente um "porta-voz" de suas demandas e pressionarão por uma reforma agrária. "Damos seis meses a Lugo. Se ele não cumprir seus compromissos, vamos enfrentá-lo", advertiu o líder camponês Belarmino Balbuena. Já o empresariado espera que Lugo acabe com a rede clientelista armada pelo Partido Colorado no país. Na quinta-feira o ex-bispo entusiasmou os empresários ao anunciar que está estudando a criação de um sistema de administração compartilhada - com participação de empresas privadas - para recuperar as estatais deficitárias.   A idéia é tornar mais eficiente um sistema burocrático que tem 220 mil funcionários públicos trabalhando nos mais diversos setores: energia, telefonia, produção de cimento, distribuição de água potável e conexões de internet. Dessa forma, Lugo seguiria na contramão da tendência de estatizações da Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina, países cujos governos nacionalistas são seus aliados.   Lugo é um novato na política. Em 2006 ele liderou a "Resistência Cidadã", que reuniu os principais partidos da oposição e sindicatos para protestar contra a política econômica do governo de Nicanor Duarte.   (Com Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo)

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