Fidel Castro passa de comandante a ideólogo de Cuba

Fidel Castro desempenhará os papéis deideólogo comunista e de velho estadista de Cuba após ter abertomão do controle sobre o país pela primeira vez desde arevolução de 1959. Fidel, 81, atualmente adoentado, anunciou na terça-feiraque não tentaria obter um novo mandato como presidente ou comochefe das Forças Armadas de Cuba quando a Assembléia Nacionaldo país se reunir no domingo. O revolucionário não continuará exercendo funções oficiais,mas permanecerá no posto de primeiro-secretário do PartidoComunista e não deixará de escrever artigos sobre questõesinternas e internacionais, fatos esses indicativos de que nãohá uma mudança drástica em vista em um dos últimos paísescomunistas do mundo. "Continuaremos esperando pelas 'Reflexões do companheiroFidel', que nos fornecem um poderoso arsenal de idéias eorientações", afirmou na quarta-feira o jornal Granma, apublicação oficial do Partido Comunista (que comanda Cuba). A aposentadoria dele após quase meio século no poder abriuas portas a uma transferência controlada de poder para Raúl, oirmão dele que vem administrando Cuba no cargo de presidenteinterino desde a metade de 2006, quando Fidel Castrosubmeteu-se a uma cirurgia intestinal. Durante décadas, os inimigos de Fidel previam que a morteou a renúncia dele faria com que milhares de cubanos fossem àsruas exigir reformas democratizantes no Estado comunista. Mas,quando a aposentadoria de fato ocorreu, os cubanos reagiram deforma discreta. Alguns disseram-se tristes com o afastamento de seu líder,enquanto outros afirmaram esperar que a manobra provoquemudanças econômicas. Ninguém, no entanto, prevê grandesalterações no sistema de partido único de Cuba. A filha distanciada de Fidel, Alina Fernández, crítica deseu pai que mora em Miami, não descartou uma transição para ademocracia em Cuba, mas disse que isso só aconteceria após amorte de seu pai. Ferndández, que deixou Cuba disfarçada de turista em 1993,afirmou ainda que seu pai está fraco e velho demais para voltara governar. "Isso é apenas uma formalidade. Acho que ele deixouo poder há um ano e meio", declarou ela à Radio-Canada. Havia mais policiais do que o usual nas ruas malconservadas e densamente povoadas da região central de Havana,cenário dos distúrbios anti-Fidel do verão de 1994,responsáveis por detonar um êxodo de 35 mil cubanos, que seserviram de embarcações precárias para lançarem-se ao mar naesperança de chegar aos EUA. Os moradores de Havana, no entanto, continuaram levandosuas vidas normalmente nesta semana. Muitos ficaram em casa nanoite de terça-feira assistindo a seu time preferido debeisebol, o Industriales, sofrer uma derrota. Poucos pareciamestar comentando o afastamento de Fidel. O membro de uma delegação européia que visita Cubaatualmente afirmou ter ficado surpreso com o fato de o assuntonão ter nem mesmo sido mencionado nos encontros que manteve comum vice-ministro e com o prefeito de Havana. PROBLEMA DE SAÚDE Fidel, que subiu ao poder em 1959, por meio de umarevolução armada, não apareceu mais em público desde que umproblema de saúde obrigou-o a delegar seus poderes para Raúl,em 31 de julho de 2006. A Assembléia Nacional de Cuba, um órgão legislativo semautonomia, deve oficialmente nomear Raúl Castro, 76, comopresidente cubano ao reunir-se no domingo. A aposentadoria de Fidel alimentou expectativas de queocorram mudanças na ilha -- e apelos por democracia vindos deseu arquiinimigo, os EUA -- mas especialistas em questõescubanas disseram ser mais provável a adoção de reformaseconômicas limitadas do que uma profunda transformação nocenário político. Para alguns cubanos que perderam as esperanças de verreformas, a mudança de líder não alterará nada. "Eu gostaria que as coisas acontecessem dessa forma, masnão acho que isso ocorrerá", afirmou Pedro, um aposentado de 74anos que esperava na fila formada do lado de fora de um bancopara retirar sua aposentadoria de 164 pesos mensais (7dólares).

ANTHONY BOADLE, REUTERS

20 de fevereiro de 2008 | 14h32

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