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Filas aumentam e chavismo prende donos de farmácias privadas em blitze

Crise econômica. Após anúncio de aumento de oferta de alimentos, milhares de pessoas saem as ruas de Caracas para comprar comida e remédios; novo salário mínimo entra em vigor e governo nomeia burocratas para ampliar ofensiva contra o setor varejista

Felipe Corazza ENVIADO ESPECIAL , O Estado de S. Paulo

02 de fevereiro de 2015 | 05h00

CARACAS - O governo da Venezuela lançou ontem uma operação contra uma rede privada de farmácias acusada de esconder produtos para provocar filas desnecessárias e cobrar preços acima do que seria aceitável. O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, informou no fim da tarde que os donos da rede Farmatodo foram presos.

O chefe de governo do Distrito Federal venezuelano, Ernesto Villegas, participou de uma blitz em uma das unidades da Farmatodo. “Não se justifica que com gente na fila haja caixas sem atendimento, muito menos uma ‘operação morrocoy’ – gíria para ocultação de mercadoria – maltratando o público”, afirmou. Villegas também foi nomeado “chefe civil do Estado Maior da Batalha Econômica” na capital, Caracas. Maduro criou “patentes” de inspiração militar para o combate ao que chama de “guerra econômica” contra o país.


A Superintendência de Preços Justos (Sundee) abriu um processo contra a Farmatodo. Diariamente, milhares de venezuelanos fazem filas nas portas de unidades da rede e de outras farmácias em busca de fraldas, papel higiênico, absorventes e outros itens essenciais afetados pela escassez. Agentes da Polícia Nacional Bolivariana e até integrantes do Serviço de Inteligência participaram de mais blitze em outras lojas do grupo.

O governo acusa o setor privado de ocultar itens para prejudicar a imagem do chavismo. As filas, no entanto, não se restringem ao comércio particular. Nos mercados estatais, também há filas e rodízio de vendas de acordo com os números finais das cédulas de identidade.

Na sexta-feira, Maduro anunciou que haveria uma megaoperação de abastecimento dos mercados do governo. Desde o início da madrugada do sábado, consumidores formaram filas que, em Caracas, chegaram aos milhares de pessoas, como visto pela reportagem no Abastos Bicentenário da Praça Venezuela.

Nos mercados do Estado, o presidente atribui o problema a “compras nervosas” que seriam provocadas pela “guerra psicológica e midiática”.

Outra medida para minimizar o impacto social da crise entrou em vigor ontem: um aumento de 15% no salário mínimo. O valor passou de 4.889,11 para 5.622,48 bolívares. É o sétimo aumento do mínimo promovido por Maduro desde que foi eleito, em abril de 2013. 

Nas ruas, a sensação é de que pouca coisa mudará. Um par de sapatos de preço médio, por exemplo, custa 2,5 mil bolívares. Um vendedor de uma loja na capital, que pediu para não ser identificado, contou ao Estado que ganha o equivalente a “dois desse aí”, apontando para um par de calçados femininos com preço de 4 mil bolívares. 

Empregos de menor qualificação pagam entre um e dois salários mínimos. Um funcionário de empresa privada de segurança, por exemplo, ganha entre 9 e 12 mil bolívares. A inflação oficial no ano passado foi de 63%.

Gasolina. O presidente da Comissão de Finanças da Assembleia Nacional, Ricardo Sanguino, disse ontem à emissora local Globovisión que o aumento do preço da gasolina deve ocorrer “ainda no primeiro semestre” do ano. 

O chavista disse, no entanto, que ainda não está definido se haverá um aumento brusco ou gradual. O governo quer acabar com o subsídio ao combustível, hoje vendido ao equivalente a pouco menos de US$ 0,01.

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