Forças Armadas vigiarão dutos após ataques na Bolívia

Ministro boliviano confirma corte de gás para o Brasil e evita falar em guerra civil por causa de protestos

Leonardo Goy e Denise Crispim Marin,

11 de setembro de 2008 | 10h16

O ministro da Fazenda da Bolívia, Luiz Alberto Arce, e o embaixador boliviano no Brasil, Maurício Dofler, disseram nesta quinta-feira, 11, que as Forças Armadas vigiarão os dutos de petróleo e gás em território boliviano após opositores ao governo de Evo Morales explodirem um gasoduto que abastece o Brasil. Durante entrevista coletiva em Brasília, Arce denunciou uma "tentativa de golpe civil", conduzido por pequenos grupos que promoveram atos de "vandalismo" e de "terrorismo" nos últimos dias.   Veja também: Ex-presidente diz que não há risco de golpe  Petrobras suspende operações em oleoduto Evo pede expulsão de embaixador dos EUA na Bolívia Entenda os protestos da oposição na Bolívia Enviada do 'Estado' mostra imagens dos protestos na Bolívia  Imagens das manifestações     Desde a semana passada, grande parte da população dos departamentos opositores de Santa Cruz, Tarija, Beni, Pando e Chuquisaca ameaçavam cortar a distribuição do gás para o Brasil e para a Argentina. Devido a uma nova interrupção no funcionamento de um gasoduto no sudeste do país nesta madrugada, a Bolívia suspendeu o envio de mais da metade do gás contratado pelo Brasil, informou à Agência Efe uma fonte da empresa Transierra. O problema na distribuição, provocado pelo "manuseio" da válvula de um duto na estação de Bella Vista, impede o envio ao Brasil de mais de 50% dos 30 milhões que o país geralmente recebe.   Arce afirmou que a explosão de um duto de gás que abastece o gasoduto Bolívia-Brasil deverá reduzir em cerca de 3 milhões de metros cúbicos diários o bombeamento de gás natural para o território brasileiro. Segundo ele, essa redução na venda de gás para o Brasil implica prejuízo diário de US$ 8 milhões para os cofres do governo boliviano. Segundo ele, é difícil fazer uma estimativa precisa do tempo que levará para consertar o estrago no gasoduto. "Mas podemos dizer que deve demorar de 10 a 15 dias". Porém, a secretária de Saneamento e Energia de São Paulo, Dilma Pena, afirmou à Agência Estado que  "a situação é grave. O envio de gás para o Brasil foi reduzido em mais de 50%, para 14 milhões de metros cúbicos por dia (m³/d)".   Segundo um comunicado da Transierra, a válvula da estação afetada nesta quinta, situada a 70 quilômetros ao norte de Villamontes, "foi manipulada gerando a interrupção total do serviço no gasoduto" que une os departamentos de Tarija (sul) e Santa Cruz (leste). "No momento, desconhecemos a forma como este manuseio foi realizado e se há danos. No entanto, já mobilizamos pessoal para tomar as medidas necessárias", diz a empresa. A Petrobras e a empresa nacionalizada Andina controlam 44,5% das ações da Transierra, enquanto a Total Bolivie, filial da franco-belga Total, detém os 11% restantes.     O ministro boliviano classificou os atos como uma tentativa de golpe e chamou de terroristas os responsáveis pela agressão às instalações. De acordo com Arce, o governo de Evo Morales determinou que as Forças Armadas passem a vigiar e fazer a guarda dos campos de petróleo e gás. "E a polícia já está investigando os responsáveis pelos atos de vandalismo e terrorismo". Entre os terroristas, listou a União Juvenil Crucenhista. Arce insistiu que esses grupos são financiados e respondem a ordens, mas não identificou claramente de quem. Conforme argumentou, a onda de violência coincidiu com a chegada no país de um líder da oposição que vivia em Miami.   Segundo Arce, embora o Estado de Sítio seja uma das alternativas constitucionais para a imposição da ordem no país, o governo boliviano resiste em decretá-lo porque submeteria toda a população do país a uma situação de emergência por conta de ações de grupos pequenos e regionais. Questionado sobre a resistência das Forças Armadas em reagir aos ataques civis às instalações do setor de gás e aos prédios públicos, por desconfiança de que o governo Morales não assumirá a responsabilidade pelas conseqüências, Arce insistiu que os militares "estão respondendo ao mandato do presidente". "As Forças Armadas vão participar do restabelecimento da ordem e da captura dos terroristas", declarou.   O embaixador da Bolívia no Brasil, que participou da entrevista coletiva ao lado de Arce, em um hotel em Brasília, ressaltou que a Bolívia nunca descumpriu contrato de fornecimento de gás para o Brasil e que "atos terroristas não podem estar nas previsões de nenhum governo". Nesta quinta, a Petrobras confirmou em nota que suspendeu as operações no oleoduto Transierra, na Bolívia, depois que manifestantes bloquearam uma válvula de segurança. O duto abastece o gasoduto Bolívia-Brasil, que oferece quase a metade da necessidade de gás no País.   Na quinta, o presidente da Estatal boliviana YPFB, Santos Ramírez, explicou que a válvula do gasoduto localizado a 50 quilômetros da cidade de Yacuiba, na fronteira com a Argentina, foi danificada após ter sido fechada à força pelos manifestantes. Com isso, a pressão causou a explosão da tubulação.   (Com Nathalia Ferreira, da Agência Estado, e Renata Miranda, de O Estado de S. Paulo)   Matéria atualizada às 11h30.

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