França aceita acolher guerrilheiros das Farc por reféns

Premiê francês elogia mediação de Chávez e anúncio de que três seqüestrados serão libertados pela guerrilha

Agências internacionais,

19 de dezembro de 2007 | 07h44

O primeiro-ministro francês, François Fillon, afirmou nesta quarta-feira, 19, que o governo de Paris está disposto a acolher os guerrilheiros que seriam libertados pelo governo colombiano das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) se o grupo armado libertar alguns de seus reféns.   Veja também: Chávez acredita na libertação de todos os reféns   Fillon se mostrou otimista diante do anúncio das Farc de que pretendem libertar três reféns em seu poder. "É mais que uma leve esperança", disse o primeiro-ministro, aplaudindo a mediação do presidente venezuelano, Hugo Chávez. A informação foi divulgada pela agência de notícias cubana Prensa Latina, após o recebimento de um comunicado assinado pelo secretariado da guerrilha.   De acordo com a nota, o grupo rebelde colocará em liberdade Clara Rojas - assessora de campanha da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt, com quem foi seqüestrada em fevereiro de 2002 -, o filho que Clara teve com um guerrilheiro no cativeiro, Emanuel, e a deputada Consuelo González de Perdomo, refém desde 2001. No comunicado, as Farc afirmam que entregarão os reféns a Chávez ou a quem ele designar, mas não precisam a data da libertação.   A França "está disponível, assim como outros países europeus e latino-americanos", para acolher os rebeldes, declarou Fillon numa entrevista à emissora Europe 1. Ele explicou que a posição foi comunicada ao presidente colombiano, Álvaro Uribe, em resposta ao pedido. O governo francês defende um acordo humanitário que permita obter a libertação de 45 seqüestrados em troca de cerca de 500 rebeldes presos.   "Há quase seis anos não se sabia de nada, nem mesmo se Ingrid Betancourt estava viva", lembrou Fillon numa entrevista. Betancourt, que também é cidadã francesa, foi candidata à Presidência da Colômbia em 2002.   Fillon disse ainda que é preciso reagir com prudência à notícia. Mas afirmou que "a sensação é de estar em processo", após a "mediação de Chávez, que permitiu obter as provas de vida" de vários reféns, entre eles Betancourt. A gestão do presidente venezuelano "teve um efeito extraordinário no mundo inteiro" e a libertação dos reféns se tornou "uma grande causa nacional dos países da América Latina", acrescentou.   Fillon disse ainda que líderes latino-americanos, como os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e o venezuelano Hugo Chávez, são bem-vindos nos esforços para ajudar a libertar os reféns. "Claro que respeitamos a soberania de todos os países e a da Colômbia em especial", "mas afirmamos que todos aqueles que puderem participar e ajudar com a libertação de Ingrid Betancourt são bem-vindos - o presidente Chávez, o presidente Lula, a presidente (argentina) Cristina Fernández de Kirchner."   "Há uma urgência humanitária. Betancourt pode morrer e quem for responsável pela sua morte, deverá assumir seus atos", alertou Fillon. Ele insistiu que Uribe "deve permitir a libertação de Betancourt", seqüestrada em fevereiro de 2002.   Clara foi capturada junto com Ingrid em fevereiro 2002, durante a campanha presidencial. No ano passado, o jornalista colombiano Jorge Enrique Botero publicou um livro no qual afirmava que a assessora da ex-candidata teve Emmanuel no cativeiro, após um relacionamento com um dos membros da guerrilha. A assessora de Ingrid foi vista pela última vez em um vídeo divulgado pelos rebeldes em 2002. Já a parlamentar Consuelo Gonzales foi seqüestrada em setembro de 2001.   A mãe de Ingrid Betancourt, Yolanda Pulecio, pediu na terça ao grupo guerrilheiro que também liberte sua filha. "Dou graças a Deus que a guerrilha tenha tomado essa decisão e não tenho dúvida de que foi por causa da mediação do presidente Chávez", disse Yolanda.   Mediação de Chávez   A entrega dos seqüestrados ao presidente Chávez pode ser interpretada como uma vitória para o líder venezuelano, que foi retirado de uma tentativa de negociação com as Farc em novembro por Alvaro Uribe, o presidente da Colômbia. Segundo Uribe, Chávez descumpriu as regras da negociação ao entrar em contato direto com militares colombianos, passando por cima da intermediação de Bogotá.   Muitos parentes dos reféns, no entanto, criticaram a decisão do presidente colombiano. Para eles, os esforços do líder venezuelano foram os primeiros a dar resultado após anos de estagnação nas negociações. No comunicado, às Farc também afirmam que a decisão de libertar os reféns é uma "compensação" a Chávez e às famílias dos seqüestrados.   As pressões para a resolução do caso ganharam força no final de novembro, depois da divulgação de um vídeo em que Ingrid aparece profundamente abatida e aparentemente doente. As imagens vieram à tona depois de os guerrilheiros se comprometerem com Chávez em oferecer uma prova de vida dos reféns. Nas últimas semanas, os governos da França, Brasil e até a recém empossada presidente argentina, Cristina Kirchner, também se envolveram nas tentativas de obtenção de um acordo humanitário.   PERFIL DOS SEQÜESTRADOSClara Rojas - Advogada de Bogotá, foi seqüestrada em 23 de fevereiro de 2002, quando tinha 38 anos. Clara era assessora de Ingrid Betancourt, então senadora e candidata à presidência. Ambas foram presas quando viajavam pela estrada para San Vicente del Caguán, no sul do país, durante um ato de campanha. Na ocasião, os guerrilheiros disseram a Clara que poderia ir embora, mas ela decidiu acompanhar Ingrid. Os guerrilheiros deram a primeira prova de vida de Clara em 2002 por meio de uma fita de vídeo em que ela aparece ao lado de Ingrid. A segunda - e última prova de vida - foi uma fita divulgada em 2003 em que ela se dirigia à mãe.Emmanuel Rojas - Filho de Clara, tem 3 anos e já nasceu seqüestrado. É fruto de um relacionamento da mãe com um guerrilheiro. Ninguém sabia de sua existência até que, em abril de 2006, o jornalista Jorge Enrique Botero, que passou algum tempo visitando campos rebeldes, lançou um livro contando sua história. Botero afirmou que o parto foi um "milagre", em razão das condições extremas em que foi feito. Recentemente, o policial John Frank Pinchao, companheiro de cativeiro de Clara que conseguiu fugir da selva, disse que o menino se chamava Emmanuel e que estava sendo criado pelos rebeldes, que diziam que o garoto era "metade da guerrilha".Consuelo González Perdomo - Era representante do Departamento de Huila na Câmara dos Deputados quando foi seqüestrada, em 10 de setembro de 2001, na véspera dos atentados contra as Torres Gêmeas em Nova York. Ela é um dos seis congressistas que ainda estão em poder da guerrilha. Tem quatro filhas. Uma delas, Patricia, faz parte da ONG País Livre e da Comissão de Reparação às Vítimas das Farc. Segundo ela, não havia provas de vida da mãe desde 2003, quando foi divulgada uma carta assinada por ela. Seu marido, Jairo Perdomo, morreu quatro anos depois do seqüestro.

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