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Frei Betto diz que volta do capitalismo a Cuba é ilusão

Castrista histórico, Carlos AlbertoLibânio Christo, conhecido como Frei Betto, afirmou nestaterça-feira que vê com tranquilidade a renúncia de Fidel Castroao poder. Poucos dias após chegar de Havana, ele não acreditaem uma reviravolta com o retorno do capitalismo ao país que há49 anos carrega a bandeira do socialismo. "Fidel se antecipou e renunciou, o que significa que, semnenhuma dúvida, Raúl Castro será eleito", disse à Reuters ofrei dominicano, escritor e adepto da Teologia da Libertação. Fidel, afastado do poder desde 31 de julho por problema desaúde, renunciou à reeleição à Presidência marcada para opróximo domingo quando se reúne a Assembléia Nacional renovada.Antes já havia transferido o poder temporariamente a seu irmãoRaúl. Frei Betto, que chegou de viagem a Havana na sexta-feira,onde participou de um congresso, conta que havia eleitores coma tendência de reconduzir Fidel à Presidência como umahomenagem ao líder de quase meio século e também com receio deuma transição traumática, mas, acredita, prevaleceu o"realismo" em função de sua doença não revelada. Ex-assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, FreiBetto, que se encontrou com Raúl na semana passada, prevê acontinuidade do socialismo em Cuba, "país pobre mas semmiséria", diz. "A meu ver, iludem-se aqueles que pensam que haja qualquersinal de volta do capitalismo. Em Cuba, não há nenhum setororganizado, representativo, que queira uma Cuba capitalista denovo", afirmou. "Quem queria foi embora ou já morreu. Quem está lá é umageração que foi beneficiada pela revolução em questões básicasde saúde e educação. Em uma Cuba capitalista, em poucos anosvoltaria a desigualdade e a miséria", completou. Com a postura de quem privou de conversas recentes comRaúl, ele acredita que a precária situação econômica deve levarCuba a algum tipo de abertura, como a ampliação das parceriasestrangeiras, mas longe do estilo chinês, onde há um grandeespectro de associações capitalistas. Para ele, que escreveu um livro sobre a visão de Fidelsobre o cristianismo, as análises sobre o futuro de Cuba sãocercadas de preconceito. "A gente fica avaliando ou com olhos de quem viu o Lesteeuropeu desabar, ou com olhos de quem vive em uma sociedadecapitalista. Mas há quantos anos estão esperando acabar?" DIRCEU COMPANHEIRO O deputado cassado e ex-ministro José Dirceu dedicou aFidel nesta tarde um texto em tom emocionado em que conta comoo conheceu nos anos 60 após ser preso pela ditadura militar. "Nada da história recente de nossas lutas e do povo daAmérica Latina poderá ser escrito sem Fidel... Revolucionário,fiel às suas idéias, coerente, sempre aberto ao debate e a lutade idéias, Fidel deixa agora a linha de frente do comando doseu país para continuar como simples companheiro. Sua luta já éparte da Historia universal", disse Dirceu em seu portal naInternet. Para o escritor Eric Nepomuceno, o afastamento dapresidência de Fidel não surge como uma surpresa e abre caminhopara uma nova etapa administrativa, ainda que de continuidade. "Era uma coisa prevista. Desde que ele se afastou, há umano e meio, já era um período de preparação para essa novaetapa que se abre agora", disse Nepomuceno, autor do livrosobre a ilha "Anotações sobre uma Revolução". Nepomuceno disse que é evidente que são necessárias váriasreformas no sistema cubano, tanto econômicas quantodemocráticas, mas também é importante preservar conquistasconsideradas por ele como "intocáveis", como o baixo índice demortalidade infantil. "Nada em Cuba vai ser brusco. Não acredito, por exemplo,que haja eleições convencionais, como conhecemos, a curtoprazo", disse Nepomuceno. "O importante é que Fidel sai, mas vai continuar exercendopoder, como parte de um processo não de transição, mas derenovação", disse Nepomuceno, autor também de "Caderno deNotas", com reportagens sobre a América Latina.

CARMEN MUNARI E FERNANDA EZABELLA, REUTERS

19 de fevereiro de 2008 | 13h40

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