Governo argentino amplia controle sobre empresas

O governo argentino deseja ter mais controle sobre os investimentos corporativos e sobre decisões envolvendo dividendos, disse na quarta-feira o chefe da agência previdenciária estatal, um dia após autoridades anunciarem a ampliação da presença estatal nos conselhos das empresas.

JORGE OTAOLA E GUIDO NEJAMKIS, REUTERS

13 de abril de 2011 | 20h03

A surpreendente medida ecoou a inesperada nacionalização dos fundos privados de pensão, ordenada no final de 2008 pela presidente Cristina Fernández de Kirchner, e que irritou o setor privado.

Com a intervenção, o governo passou a ter participação em 42 empresas, sendo que em 15 delas chegou a possuir 20 por cento das ações. Isso inclui companhias dos setores financeiro, energético, siderúrgico e de telecomunicações.

O Estado até agora estava limitado a uma participação de 5 por cento dos votos nos conselhos empresariais, mas uma resolução publicada na quarta-feira pelo Diário Oficial eliminou essa regra.

"Isso é um ato de Justiça", afirmou Diego Bossio, chefe da agência previdenciária estatal Anses. "Os direitos do Estado estavam sendo pisoteadas quando ele tinha 30 por cento das ações e só poderia exercer (o direito de voto) em 5 por cento."

Cristina Kirchner acredita que o Estado deve intervir na economia para contrabalançar os interesses privados, e sua nova medida pode lhe dar força política junto ao eleitorado esquerdista para disputar um novo mandato em outubro - ela já é tida como favorita.

Analistas disseram também que a medida sugere que considerações de ordem política pesarão mais do que critérios técnicos ou empresariais. E a principal entidade industrial argentina pediu ao governo que reveja sua conduta.

"A presença do Estado implica um maior controle, maior participação nos investimentos, na participação na política de dividendos, (e) contribuir para que as empresas se saiam bem", disse Bossio à televisão estatal. "Afinal, os interesses da Anses, do Estado e das empresas são todos a mesma coisa."

O governo argentino já endureceu o controle sobre a economia por meio de limites de preços, restrições de importação e exportação, e regras para garantir o abastecimento de inúmeros produtos - de combustível a alimentos - em meio a uma inflação elevada.

Empresários tendem a evitar críticas a políticas do governo, em parte porque temem represálias, e também porque muitos deles ainda têm lucros, apesar da intervenção.

Mas a União Industrial Argentina pediu ao governo que recue, dizendo que a pressão de dirigentes sindicais para participarem dos conselhos administrativos, junto com medidas legislativas que ampliam o poderio sindicalista no processo decisório, "só aumenta a incerteza".

O governo centro-esquerdista de Cristina é aliado de Hugo Moyano, presidente da poderosa central sindical CGT, que pressiona por mais influência no governo e nas empresas.

(Reportagem adicional de Walter Bianchi, Magdalena Morales e Hugh Bronstein)

Tudo o que sabemos sobre:
ARGENTINAEMPRESAS*

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.