Governo argentino diz só haver diálogo com fim da greve

Produtores agropecuários continuam a bloquear a estrada por onde passa maior volume de mercadorias

Ariel Palacios,

30 de março de 2008 | 18h44

O governo da presidente Cristina Kirchner indicou domingo, 30, que só dialogará com os produtores do setor agropecuário caso estes suspendam a greve - e os piquetes nas estradas - que realizam há duas semanas e meia.   Na sexta-feira, as quatro associações do setor haviam decidido suspender a greve que haviam realizado durante 16 dias para iniciar negociações com o governo. Mas, menos de 24 horas depois, sem vislumbrar avanços nas reuniões com os ministros - e diante do que denominaram de "intransigência" da presidente Cristina - os produtores determinaram o retorno à paralisação de atividades.   Além disso, retomaram os bloqueios nas estradas, que impedem a passagem de caminhões com produtos agrícolas, entre elas, a Estrada Nacional Número 14, por onde passa o maior volume das mercadorias transportadas entre o Brasil e a Argentina.   Domingo, 30, o governo, por meio do Ministro do Interior, Florencio Randazzo, emitiu um comunicado no qual lamenta os piquetes nas estradas. O ministro sustentou que o setor agropecuário "só terá soluções" se a greve e os piquetes forem suspensos. "O único efeito dos piquetes é o desabastecimento para nossas crianças e idosos", disse. O desabastecimento assola as principais cidades argentinas desde a semana passada. Nas gôndolas dos supermercados faltam carne, laticínios e verduras.   O comunicado de Randazzo foi interpretado pelo setor agropecuário como um sinal de que a disponibilidade do governo para o diálogo com os produtores estava novamente suspenso. Desta forma, tornavam-se escassas as chances de que segunda-feira, 31, fosse realizada uma nova reunião entre os dois lados.   O cenário, até o momento, é o de total impasse. O governo, por seu lado, afirma que não aceita de forma alguma a suspensão dos aumentos dos impostos sobre as exportações, o pivô do conflito.   Os produtores sustentam que não suspendem a greve e os piquetes enquanto o governo persistir em manter os aumentos. No fim de semana, as lideranças agropecuárias pediram que o governo pelo menos suspenda os aumentos por 90 dias. Em troca, suspenderiam a greve. Mas, Cristina rejeitou a proposta. Extra-oficialmente, integrantes do governo afirmam que Cristina Kirchner não pode ceder, já que sua atitude seria vista como sinal de "debilidade política".   O governo também anunciou ontem que a presidente Cristina havia cancelado sua viagem à Londres, onde estava previsto uma reunião com o primeiro-ministro britânico Gordon Brown. Nesse encontro, crucial para a diplomacia argentina, Cristina planejava intensificar as reivindicações sobre as Ilhas Malvinas, em posse da Grã-Bretanha desde 1833. Na seqüência, a agenda presidencial previa uma reunião em Paris com o presidente francês Nicolas Sarzkozy. Mas, diante do cenário de conflito e desabastecimento de alimentos, a presidente optou por ficar no país.   CLIENTELISMO - As "retenções", como são denominados os impostos sobre as exportações, são o ponto focal do conflito, embora o setor agropecuário tenha uma longa lista de reclamações a fazer.   Os tributos sobre a venda de soja para o exterior passaram de 25% em janeiro de 2007 para 35% em novembro, até chegar os polêmicos 44,1% da primeira semana de março. No caso do girassol, subiram de 32% para 39,1%. Graças aos impostos sobre as exportações de produtos agrícolas, o governo Cristina arrecadará US$ 11 bilhões neste ano. Os produtores sustentam que a administração Cristina mantém, às suas custas, sua política "clientelista".   No total, quase todo o superávit fiscal argentino, afirmam os economistas, é mantido "artificialmente" pelos impostos sobre as exportações agrícolas e os tributos sobre as operações financeiras (similar à CPMF brasileira). No ano passado, o país contou com mais de US$ 8 bilhões em superávit fiscal.   Os produtores acusam o governo de usar o superávit para manter sua política assistencialista. Um dos pontos mais criticados pelos agricultores é que por meio desses impostos, sustentam indiretamente os mais de 1,5 milhão de pessoas beneficiadas pelos Planos Mães e Pais de Família (um polêmico sistema de seguro-desemprego utilizado de forma clientelista).

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