Governo argentino propõe adiantar eleições legislativas

Cristina diz que medida é necessária para evitar série de votações até outubro em meio à crise

Marina Guimarães, Agência Estado

13 de março de 2009 | 20h32

A presidente da Argentina Cristina Fernández de Kirchner confirmou a decisão do governo de antecipar as eleições legislativas do dia 28 de outubro para 28 de junho. "Vou enviar na segunda-feira ao Congresso o projeto de lei para antecipar as eleições de 28 de outubro para 28 de junho", afirmou nesta sexta-feira, 13, a presidente em discurso na província de Chubut.

 

Cristina argumentou que as eleições precisam ser adiantadas porque o país não pode sustentar uma série delas até outubro, em meio a uma crise internacional de tamanha dimensão. "Seria suicida enfrentar tantas eleições, quando o mundo se cai aos pedaços sobre nós", alegou, completando que "tenho a obrigação indelegável de tomar todas as medidas que permitam que o país siga crescendo e que os argentinos tenham trabalho."

 

"Neste desastre que é o mundo, não se pode realizar uma espécie de maratona de eleições até outubro e, por isso, sugerimos o dia 28 de junho para todas as eleições legislativas do país", anunciou. Pela legislação atual, a escolha dos ocupantes do Congresso está marcada para o dia 28 de outubro, enquanto cada província tem sua própria data para eleição de deputados e vereadores. A província de Catamarca já realizou a sua eleição no domingo passado, na qual a oposição ao "kirchnerismo" obteve uma contundente vitória.

 

"A crise é grave e demanda uma atitude diferente por parte de cada um de nós", destacou Cristina. As eleições vão renovar um terço do Senado e metade da Câmara, além dos deputados e vereadores das províncias. Os analistas afirmam que a manobra partiu do ex-presidente Néstor Kirchner, atual presidente do Partido Justicialista (PJ), com o objetivo de evitar o desgaste político que surge a cada dia com a deterioração da economia.

 

Os resultados de Catamarca poderiam ser replicados em algumas importantes províncias, como Santa Fe e Buenos Aires. O desgaste político do kirchnerismo não é novo. Os problemas tiveram início apenas três meses após a posse de Cristina, em março do ano passado, quando o governo decidiu abrir um conflito com o setor agropecuário. As diferenças entre os dois lados levaram o kirchnerismo, em julho do ano passado, à sua primeira derrota no Congresso dos últimos cinco anos. Na ocasião, com seu voto negativo, o vice-presidente Julio Cobos desempatou a votação do projeto do Executivo de aumentar os impostos de exportações agrícolas.

 

Mudanças

 

De lá para cá, o casal perdeu importantes aliados, o conflito com o setor agropecuário foi renovado e os produtores rurais voltaram com os protestos nas estradas e rodovias. A crise econômica internacional, que também afeta a economia interna, ajuda no desgaste político de Cristina. Os analistas acreditam que a crise internacional afetará o país cada vez mais, o que vai alterar o humor da sociedade.

 

"Em épocas de crise econômica, o eleitor tende a votar contra o governo", afirmou o analista político Carlos Fara, lembrando que faltam muitos meses para outubro, o que poderia piorar o cenário econômico nacional. "A única forma de Kirchner manter seu poder e decidir quem será o candidato à presidência em 2011 é evitar sua derrota nas eleições provinciais que serão realizadas até outubro e no pleito para a renovação do Congresso", explicou.

 

Para a oposição, "a manipulação de uma lei eleitoral e de uma data votada pelo Congresso há mais de dois anos provoca danos à qualidade institucional de um país", afirmou a senadora Maria Elena Stenssoro, da Coalición Cívica. O líder da bancada da Unión Cívica Radical (UCR), Ernesto Sanz, por sua vez, disse que "em nenhum país do mundo se manipula as eleições porque o governo está mais ou menos debilitado."

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