Governo boliviano denuncia início de 'golpe civil' da oposição

Invasões e confrontos violentos e tentaviva de cortar gás para o Brasil tentam romper democracia, diz La Paz

CARLOS ALBERTO QUIROGA, REUTERS

10 de setembro de 2008 | 08h46

O governo da Bolívia denunciou na terça-feira, 10, o início de uma tentativa de "golpe civil" realizada pela oposição conservadora do Departamento de Santa Cruz, mas descartou a possibilidade de decretar um estado de sítio para diminuir a tensão política. Uma série de invasões violentas de agências e empresas públicas da cidade de Santa Cruz e uma tentativa fracassada de interromper a exportação de gás natural ao Brasil fariam parte do "golpe cívico contra a unidade e a democracia na Bolívia", disse Alfredo Rada, ministro de governo. Veja também:Oposição boliviana invade distribuidora de gás ao Brasil A agressividade das manifestações em Santa Cruz e em outros três dos nove Departamentos bolivianos, somada à denúncia do governo, marcaram um dos dias mais tensos do conflito travado atualmente no país sul-americano e provocado pelo rechaço por parte da direita às reformas socialistas defendidas pelo presidente Evo Morales. Um grupo da oposição boliviana ocupou a instalação de uma distribuidora de gás natural para o Brasil na região do Chaco, em Tarija, enquanto em outros quatro departamentos (Estados) do país, manifestantes continuavam a tomar edifícios públicos e bloquear estradas.  O ministro responsabilizou o governador de Santa Cruz, Rubén Costas, e Branko Marinkovic, líder cívico desse rico Departamento, pela onda de violência alimentada por "grupos fascistas" que tomaram e saquearam várias instituições públicas, entre as quais a sede regional da TV estatal. "Denunciamos diante do país e da comunidade internacional que aquilo que vinha sendo arquitetado com apoio interno e externo, que vinha sendo preparado desde as organizações cívicas e os governos regionais da oposição hoje se materializou", afirmou Rada ao final de uma reunião noturna de emergência entre Evo e seu gabinete de chefes militares e policiais.  Segundo Rada, o governo, que pretende realizar um referendo para colocar em vigor uma nova Constituição de viés socialista, "não vai cair nas provocações fascistas", mas sim "responderá com seriedade e também com firmeza democrática e constitucional". "Ao contrário do que vem sendo dito em Santa Cruz, o governo nacional não decretará nenhum tipo de estado de sítio. As vidas dos 1 milhão de moradores (dessa cidade) e suas liberdades não serão alteradas por causa de 500 ou 600 malandros", afirmou na mesma entrevista coletiva o ministro boliviano da Defesa, Walker San Miguel. Gás para o Brasil Funcionários bolivianos desmentiram rumores de que o fornecimento de gás ao Brasil a partir de uma usina em Villamontes teria sido interrompido depois de o local ter sido ocupado por opositores do governo. As instalações invadidas pertencem à franco-brasileira Transierra e ficam no vilarejo de Villamontes, a cerca de 1.200 quilômetros de La Paz. O gasoduto que passa pela região de Villamontes leva mais de 17 milhões de metros cúbicos de gás diariamente ao Brasil. A Transierra - empresa na qual a Petrobrás tem participação de mais de 40% - transporta o gás proveniente dos campos de San Alberto e San Antonio.  A invasão ocorreu em meio a uma escalada de tensões na Bolívia. Há mais de uma semana grupos opositores do presidente Evo Morales estão organizando ações como ocupações de estradas, invasões de edifícios públicos e tomadas de postos da fronteira com o Brasil, a Argentina e o Paraguai em cinco departamentos opositores - Santa Cruz, Tarija, Beni, Chuquisaca e Pando. O objetivo é protestar contra o projeto de uma nova Constituição, aprovado por parlamentares governistas em novembro, que Evo pretende referendar em votação em dezembro. Os manifestantes exigem, ainda, a restituição de parcela do imposto sobre gás e petróleo, que era repassada para os governos, mas foi confiscada pelo governo para financiar uma pensão nacional para idosos.  Os protestos abrem mais um capítulo da disputa entre o governo Evo e a oposição regional. Eleito em 2005 prometendo refundar a Bolívia, Evo teve seu mandato ratificado no referendo revogatório de agosto com 67% dos votos e agora quer acelerar suas reformas. A oposição resiste e exige que o governo reconheça os estatutos autonômicos aprovados em consultas populares em quatro departamentos.

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