Governo da Bolívia declara estado de sítio na região de Pando

Medida foi tomada diante da 'violência e crescente número de vítimas'; 14 já morreram no Departamento

Agências internacionais,

12 de setembro de 2008 | 20h37

A Bolívia declarou nesta sexta-feira, 12, estado de sítio em Pando, no norte do país, diante da "violência" na região e "o crescente número de vítimas". O comunicado governamental foi lido pelo ministro da Defesa, Walker San Miguel, em uma coletiva de imprensa no Palácio do Governo, na qual explicou que na região ocorrem atos de vandalismo e saques de propriedades privadas. Até agora, 14 pessoas já morreram no Departamento devido aos confrontos entre partidários e opositores ao presidente Evo Morales.   Veja também: OEA pede diálogo na Bolívia; alimentos começam a faltar Sobe para 14 o número de mortos em conflitos na Bolívia Evo descarta repressão armada em meio à violência na Bolívia Governo boliviano propõe diálogo com oposição Missão diplomática brasileira para Bolívia segue indefinida Entenda os protestos da oposição na Bolívia Enviada do 'Estado' mostra imagens dos protestos na Bolívia  Imagens das manifestações     San Miguel afirmou que o decreto foi aprovado nesta tarde e estabelece uma situação excepcional de "extrema gravidade" para "garantir a vida" e os "interesses da coletividade" na região. "A violência promovida e financiada por grupos racistas delinquentes em Pando causou crimes de lesa humanidade, provocando a morte de cidadãos e a tomada violenta de instituições públicas e privadas", continuou o ministro.   "Pando vive momentos de terror e de violência transbordada", disse o ministro de Governo (Interior), Alfredo Rada, que assegurou que ocorreu um "massacre" na zona em um confronto armado entre civis ocorrido na quinta-feira na localidade de Porvenir.  O estado de sitio estabelece, entre outras restrições, a proibição de portar armas de fogo, armas brancas, materiais explosivos e a circulação de mais de três pessoas juntas e de veículos entre a meia-noite e 6 horas.   A medida também proíbe a organização de reuniões políticas e manifestações, e impõe para os cidadãos a necessidade de obter um salvo-conduto para viagens fora da região. Os direitos e garantias individuais são temporariamente suspensos, e os poderes Legislativo e Judiciário são submetidos ao Executivo. Somente é decretado em situações de emergência nacional.   A oposição boliviana está apoiada nos distritos da região oriental do país, nos quais se iniciaram processos de autonomia em oposição à nova Carta Magna, que aprofundaria a nacionalização dos recursos naturais e daria mais poder à maioria indígena. San Miguel disse que a situação em Pando, com uma população de cerca de 100 mil habitantes e situado ao norte, na fronteira com Brasil e Peru, é "de uma grande comoção interna."   "Cada hora que passa, as emissoras de rádio e os meios de comunicação reportam um número crescente de vítimas. Os cadáveres que estão no necrotério de Cobija vão se acumulando e outros cadáveres são encontrados no monte ou no rio", declarou Rada na entrevista.   O comparecimento dos ministros, que estiveram acompanhados do Alto Comando militar, aconteceu minutos depois que Evo recebeu o governador regional de Tarija, Mario Cossío, que foi a La Paz representando seus colegas autonomistas para tentar abrir um processo de diálogo.   Envio de tropas   Ainda na noite desta sexta-feira, tropas federais foram enviadas a Pando e tomaram o controle do aeroporto na capital do Departamento, Cobija, atirarando para o ar para dispersar os manifestantes. Mais cedo, Evo havia assegurado que seria o "primeiro a proibir o Exército e a polícia de usarem armas de fogo contra a população", defendendo o diálogo.   Retirada brasileira   Os consulados do Brasil na Bolívia estão "estimulando" cidadãos brasileiros a inscreverem-se em uma lista que pode ser usada caso haja necessidade de iniciar um plano de evacuação devido à onda de violência na Bolívia, informaram à Agência de notícias Efe nesta sexta-feira fontes oficiais.   A lista fica sempre à disposição dos cidadãos, mas nos últimos dois dias os consulados começaram a "recomendar" aos brasileiros que residem no país andino para que façam parte dela. O Brasil tem representações consulares em La Paz e Santa Cruz de la Sierra, assim como vice-consulados em Cochabamba, Cobija, Guayaramerín e Puerto Suárez, além de consulados honorários em Sucre, Tarija e Santo Inácio de Velasco.   Segundo o Itamaraty, não foi aprovado até agora nenhum plano de evacuação, mas a decisão de estimular o registro nos consulados foi tomada "por via das dúvidas", como sempre se faz "em casos de risco potencial" para os cidadãos brasileiros que residem no exterior.   De acordo com dados da Associação de Produtores de Oleaginosas e Trigo de Bolívia, cerca de 100 famílias brasileiras produzem 35% da soja da Bolívia.  

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