Governo e oposição boliviana esperam assinar acordo na terça

Unasul respalda Evo Morales e anuncia envio de missão à Bolívia para mediar crise política no país

Agências internacionais,

16 de setembro de 2008 | 07h42

O governo e a oposição da Bolívia afirmaram que esperam alcançar um acordo para encerrar a crise política que atinge o país nesta terça-feira, 16. A anúncio foi feito nesta madrugada, horas depois do encontro de emergência da União das Nações Sul-Americanas (Unasul). Os nove presidentes sul-americanos presentes respaldaram de forma unânime o governo de Evo Morales e aprovaram o envio de uma missão especial à Bolívia para ajudar na busca de uma solução para a crise política no país.   Veja também: Opositores acusam Chávez de controlar líder boliviano  Bolívia tem histórico de golpes e crises  Entenda os protestos da oposição na Bolívia Entenda o que é a Unasul Enviada do 'Estado' mostra o fim dos bloqueios Imagens das manifestações     Mário Cossio, prefeito do Departamento de Tarija e representante dos governadores oposicionistas que desafiaram Evo nos últimos dias, disse ao sair de mais uma reunião com o governo boliviano que o documento de acordo está praticamente acertado, dependendo apenas da assinatura de Evo. "Faltam apenas detalhes políticos que queremos conversar com o presidente", declarou. O governador deve se reunir com Evo ainda pela manhã para a última revisão e a assinatura do acordo.   O vice-ministro da Descentralização, Fabian Yaksic, confirmou que o acordo estabelece bases de diálogo sobre todos os temas que levaram aos confrontos políticos - a nova Constituição proposta por Evo, as autonomias dos Departamentos, os impostos petrolíferos e o fim das medidas de pressão. O processo de aproximação iniciado no fim de semana permitiu a normalização das atividades em Santa Cruz e outros três Departamentos atingidos pelos protestos antigovernamentais. Manifestantes levantaram os bloqueios das estradas para respaldar o diálogo entre governo e oposição.   Durante as mais de seis horas de conversação, o presidente boliviano condicionou a instalação de uma mesa de diálogo à desocupação dos prédios públicos tomados pela oposição e à investigação do que chamou de "massacre de Pando" - em uma referência aos 15 mortos no departamento do norte da Bolívia nos últimos dias. Os líderes de Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, Equador, Paraguai, Uruguai e Venezuela expressaram apoio a Evo no documento final, além de respaldarem a integridade territorial boliviana. Segundo o chanceler do Peru, José Antonio García Belaúnde, a Unasul também estuda a possibilidade de acompanhar a investigação sobre as mortes em Pando e, após consultas ao governo e à oposição da Bolívia, acompanhar paralelamente a instalação da mesa de negociação.   O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, resumiu, ao final do encontro, o objetivo dos líderes. "Evo precisa ter o apoio da região, ele é o presidente legitimamente eleito", afirmou. "E essa legitimidade foi ratificada por 67% dos bolivianos", acrescentou Lula, lembrando o referendo que respaldou o mandato de Evo. Segundo ele, "questões relativas ao tema do gás não foram tratadas na reunião".   A atual onda de protestos começou há três semanas, depois de vários meses de conflito entre líderes conservadores de quatro Departamentos que exigem sua autonomia e a mudança da Constituição proposta por Evo, o primeiro presidente indígena da Bolívia. A nova Carta Magna, que o presidente pretende aprovar em referendo no início de 2009, consolida a nacionalização da economia, proíbe os latifúndios - quase todos em Santa Cruz - e dá mais poder aos indígenas. Os governadores exigem ainda restituição do imposto do gás e petróleo às regiões e os estatutos autonômicos.   Vítimas dos protestos   O governo da Bolívia informou que 15 mortos nos violentos confrontos de Pando já foram"identificados e confirmados". Os choques deixaram também 37 feridos e 106 desaparecidos. Os números foram dados pelo ministro de governo (Interior), Alfredo Rada, que explicou que os mais de 100 desaparecidos "estariam feridos e com risco de perder a vida". "Este é o dado mais preocupante", disse.O Exército boliviano prendeu na segunda dez suspeitos de envolvimento na morte de camponeses na semana passada em Pando e confiscou armas de grupos opositores, dizendo que elas poderiam estar relacionadas ao caso. Testemunhas afirmam que o massacre de camponeses ocorreu quando eles se dirigiam em caravana para uma assembléia regional com objetivo de debater possíveis soluções para o conflito no país. Imagens de uma TV local mostram supostos civis atirando contra o grupo. O governo ainda busca mais vítimas do massacre.O promotor-geral da Bolívia, Mario Uribe, emitiu ontem uma ordem de prisão contra o governador de Pando, Leopoldo Fernández, e disse que abriu um processo para investigar acusações de genocídio e outros delitos feitas contra ele. O líder opositor foi acusado pelo governo central de ser o principal responsável do assassinato dos camponeses na cidade de Cobija, capital de Pando. A Presidência da Bolívia também havia emitido no sábado uma ordem de prisão contra Fernández.     (Com Roberto Lameirinhas, enviado especial de O Estado de S. Paulo no Chile, e Renata Miranda, enviada especial na Bolívia)  

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