REUTERS/Daniel Tapia
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Guaidó volta a convocar protestos e vice-presidente promete petróleo por cooperação russa

Retorno de líder oposicionista à Venezuela está previsto para segunda, 4; Delcy Rodríguez tem se reunido com autoridades russas

AFP e EFE, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2019 | 13h48
Atualizado 03 de março de 2019 | 22h11

QUITO - O líder opositor e autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, disse neste domingo, 3, que pretende voltar para a Venezuela na segunda, 4, onde pretende liderar novos protestos contra o chavismo convocados pela oposição. Guaidó está viajando pela América Latina e se encontrando com líderes de nações que o apoiam desde a semana passada.

Em viagem ao Equador, ontem, Guaidó confirmou seu retorno. “Anuncio meu regresso do Equador, país irmão, que hoje também reinicia relações produtivas entre nossos povos, para enfrentar não apenas a crise migratória, mas também o flagelo da corrupção”, disse Guaidó à imprensa após se reunir com o presidente equatoriano Lenín Moreno. “Embora também seja carnaval na Venezuela, hoje temos pouco a comemorar e muito a fazer. Vamos convocar novos protestos.”

Guaidó chegou na tarde de sábado ao Equador para se reunir com Moreno, que expressou seu apoio a uma “profunda transformação” na Venezuela. “Estaremos atentos às coordenadas que marcam o povo venezuelano e você, como seu líder, como o líder desta cruzada de profunda transformação de que precisa o povo venezuelano”, disse Moreno. 


Depois de visitar também a Colômbia, o Brasil, o Paraguai e a Argentina, Guaidó disse que “pronunciamentos de presidentes amigos reconhecendo a luta dos venezuelanos são muito importantes” para o país. Ele viajou para a cidade equatoriana de Salinas acompanhado por sua esposa, Fabiana Rosales, e o embaixador nomeado para Quito, René De Sola. Durante sua visita, Guaidó caminhou com Moreno ao longo de um calçadão, onde tirou fotos com algumas pessoas que também passeavam ali.

Em um pronunciamento neste domingo, 3, transmitido pelas redes sociais, Guaidó reconheceu que a oposição cometeu erros, mas voltou a pedir apoio do povo. “Vamos com muito mais força às ruas. Claro que será um processo longo e cometemos erros, mas o momento é agora”. Guaidó voltou a agradecer os líderes, entre eles o brasileiro Jair Bolsonaro, pelo apoio que recebeu. “Esse giro pela América Latina veio para reconhecer a Constituição venezuelana”, afirmou. 

Guaidó deixou a Venezuela no último dia 22, após a Justiça ter proibido sua saída, para apoiar uma ação de ajuda internacional ao seu país. O presidente Nicolás Maduro afirmou que Guaidó “terá de se entender com a Justiça quando voltar”, e ele pode ser preso por ter desrespeitado a determinação judicial.

Nos últimos dias, Maduro e os principais dirigentes chavistas sugeriram que o líder opositor deveria ser levado à Justiça. No entanto, ninguém pediu abertamente sua prisão e fontes ligadas ao governo ouvidas pelo diário espanhol El País asseguravam que a principal determinação era “evitar cair em provocações”. Tudo indica que o sucessor de Hugo Chávez na Presidência ainda deverá tomar sua decisão após consultar um grupo de colaboradores próximos.

Uma das opções que circulam por Caracas é a de que as autoridades migratórias impeçam seu retorno à Venezuela, condenando-o a uma espécie de exílio. Ele também poderia ser detido, uma vez que é — tecnicamente — um fugitivo. Uma detenção aproximaria seu caso do de Leopoldo López, mentor político de Guaidó e líder de seu partido, o Vontade Popular, detido em 2014. A detenção traria repercussões imprevisíveis, como o crescimento dos protestos, um endurecimento do cerco diplomático no exterior, ou uma reação mais contundente de Washington, que se nega a descartar a possibilidade de intervenção militar.

Caso consiga retornar, Guaidó terá de mudar sua estratégia para evitar um novo fracasso como o do dia 23 de fevereiro. A tentativa de levar ajuda internacional ao país para desestabilizar o chavismo não surtiu efeito. Depois do fracasso, Guaidó chegou a pedir à comunidade internacional que “deixasse abertas todas as opções para garantir a libertação da Venezuela”, o que foi entendido como um pedido por uma intervenção militar. Nem mesmo o governo da Colômbia, principal apoiador da oposição venezuelana ao lado de Washington, defendeu a ideia, e o Grupo de Lima descartou com veemência a opção.

Intervenção militar

A convocatória de Guaidó aconteceu no mesmo dia em que a presidente do Senado russo, Valentina Matviyenko, se reuniu com a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, a quem garantiu que Moscou fará tudo o que estiver ao alcance para impedir uma intervenção militar dos Estados Unidos no país latino-americano.

Matviyenko entregou a Rodríguez uma versão em espanhol da declaração aprovada pelo Senado russo que adverte aos Estados Unidos que qualquer intervenção na Venezuela seria interpretada como um "ato de agressão" e convoca a comunidade internacional a apoiar o diálogo no país latino-americano.

"Nos preocupa em grande medida que os Estados Unidos possam realizar qualquer provocação para causar derramamento de sangue e encontrar assim uma desculpa e um motivo para intervir na Venezuela. Mas nós faremos o possível para que isso não ocorra."

A senadora ainda chamou de "grosseira violação do direito internacional e dos estatutos da Organização das Nações Unidas (ONU)" as tentativas de "derrubar ilegalmente o atual presidente" e "a nomeação como chefe do país de um político opositor no exterior".

Matviyenko afirmou que na lista de países nos quais os EUA pretendem provocar mudanças de poder por meios ilegais estão Cuba e Nicarágua.

Na sexta-feira, 1, a vice-presidente da Venezuela se reuniu com o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, e com o presidente da Câmara dos Deputados, Viacheslav Volodin. Delcy Rodríguez afirmou que Caracas está disposta a trocar petróleo pela cooperação com a Rússia em matéria de energia, armamento, tecnologia e finanças.

"A Rússia tem tudo o que a Venezuela necessita. Por sua vez, a Venezuela pode dar o petróleo que a Rússia precisa", afirmou a vice-presidente.

Depois de se reunir com Lavrov, Rodríguez anunciou a transferência para Moscou do escritório da companhia estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) que fica em Lisboa e revelou as instruções do presidente Nicolás Maduro para adquirir na Rússia os alimentos e remédios que os venezuelanos necessitam.

A vice-presidente também antecipou a criação de um grupo na ONU, por iniciativa dos dois países, que se dedicará a defender os princípios do direito internacional./ AFP

 

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