'Guerra do óleo' agrava conflito político na Bolívia

Uma insólita "guerra do óleo" se somouna terça-feira às dificuldades do presidente boliviano, EvoMorales, para convencer a oposição conservadora a aceitarreformas políticas e econômicas. Ao mesmo tempo, parecia aponto de naufragar a mediação da Igreja Católica. O novo atrito do governo, de esquerda, com as organizaçõesempresariais controladas pela direita se deve à proibição daexportação de óleos comestíveis, medida adotada na semanapassada pelo governo com o objetivo de conter a inflação. A proibição não afeta as exportações de soja, que vãoprincipalmente para Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, mas asorganizações empresariais do rico Departamento de Santa Cruz(leste), onde há cultivo de soja, criticaram a proibiçãodurante um congresso na terça-feira. Os produtores cruzenhos de soja e óleo, entre os quais olíder oposicionista Branco Marinkovic, pediram ao governadorRubén Costas que só dialogue com Morales se o decreto forrevogado, segundo a rádio Erbol. O preço do óleo comestível no mercado interno dobrou noúltimo mês, atingindo 2,10 dólares por litro. "Não podemospermitir que o preço do óleo no país seja o mais alto domundo", disse a ministra de Desenvolvimento Rural, SusanaRivero, ao explicar a decisão governamental. Ela rejeitou a acusação de que o interesse do governo sejadestruir a indústria de Santa Cruz, e afirmou que o óleo que aBolívia consome é menos de 15 por cento da sua produção desoja, que segundo um relatório do setor chegaria neste ano a 1milhão de toneladas. Rivero disse que no último mês os industriais bolivianosfixaram o preço do óleo com base num valor referência de 1.690dólares por tonelada de soja, 30 por cento acima da cotação deChicago. "O governo não pode permitir isso", afirmou. Ela lembrou que a medida é temporária e não afeta aexportação de soja em grãos ou outras formas, que representam10 por cento das exportações do país. DIÁLOGO EM DÚVIDA Duas semanas depois de aceitar o papel de "facilitadora" nodiálogo político, a Igreja boliviana ainda não fez umaconvocação formal para o encontro. O secretário-geral daConferência Episcopal disse a jornalistas que isso sóacontecerá "se as partes demonstrarem vocação sincera eabandonarem as ameaças." De acordo com ele, até agora só Morales deu sinais deflexibilidade. O presidente diz estar disposto a reabrir odebate sobre a nova Constituição "plurinacional" aprovada emdezembro pela Assembléia Constituinte e que ainda tem de sersubmetida a referendo. Quatro governadores de oposição mantêmseus planos de referendos sobre a autonomia de seusDepartamentos. O primeiro deles está previsto para 4 de maio em SantaCruz. O governador Costas disse que o referendo será mantidoapesar de ter sido proibido pelo governo, o Congresso e aJustiça Eleitoral. (Reportagem de Carlos Alberto Quiroga)

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