'Guerrilha quer espaço no debate político e na mídia'

Para especialista, libertações unilaterais são caminho da guerrilha para voltar ao destaque internacional

Ruth Costas, O Estado de S. Paulo

03 de fevereiro de 2009 | 12h29

Desmoralizadas, acuadas militarmente e sem condições de pressionar o governo colombiano a sentar-se à mesa de negociações, as Farc tinham poucas alternativas para obter a atenção dos colombianos e do mundo além das liberações unilaterais de reféns, segundo analistas. "Essa foi a forma encontrada pelo grupo para ganhar algum espaço político e projeção na mídia", diz César Restrepo, da Fundação Segurança e Democracia, em Bogotá.   Veja também: Farc prometem libertação dos últimos reféns políticos Cronologia dos sequestrados das Farc Por dentro das Farc  Histórico dos conflitos armados na região     Ele explica que, com a libertação de Ingrid Betancourt e dos três reféns americanos numa operação militar, em julho, a guerrilha perdeu seu grande trunfo nas negociações com o governo. "Desde então, ninguém mais falava muito em Farc ou - o que é triste - nos mais de 20 reféns políticos em mãos da guerrilha", diz Restrepo.   As libertações unilaterais começaram há um ano, quando a guerrilha entregou duas reféns para o presidente venezuelano, Hugo Chávez, que tem afinidades ideológicas com as Farc. Na época, segundo analistas, os guerrilheiros acreditavam que, ao ser incluído na gestão do conflito colombiano, Chávez poderia ajudá-los a ganhar legitimidade. O tiro saiu pela culatra - e os relatos dos reféns libertados sobre o trato desumano que receberam no cativeiro só alimentaram a repulsa às Farc dentro e fora da Colômbia.   "Agora, além de reconstruir-se militarmente, a guerrilha tem de limpar sua imagem - e é isso que eles tentam fazer com essas libertações", diz o cientista político Carlos Medina, da Universidade Nacional da Colômbia. Estariam os guerrilheiros dispostos a abandonar os sequestros e seguir o caminho político?   A questão é controvertida. "Acredito que sim: eles já tentaram esse caminho nos anos 80 e hoje não têm muitas alternativas", diz Medina. "Não: as Farc querem apenas um tempo para se recuperarem militarmente e começar a atacar em centros urbanos", rebate Restrepo.   O que todos concordam é que a questão não é tanto saber o que as Farc querem fazer, mas o que o governo colombiano está disposto a permitir que as Farc façam. A pesada ofensiva militar do presidente Álvaro Uribe reduziu os efetivos da guerrilha de 20 mil para 8 mil e a confinou em rincões isolados da selva colombiana. "Foi essa vitória militar que impulsionou a popularidade de Uribe e, apesar do drama dos reféns, qualquer líder político sabe que para ganhar as eleições hoje na Colômbia não deve mais falar em conversar com as Farc, mas em combatê-las", diz Restrepo.

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