Haiti tem longo caminho até estabilização, diz brasileiro

Diplomata rebate acusações da OAB e reafirma que Forças da ONU são humanitárias, e não de ocupação

Eduardo Simões, da Reuters,

03 de outubro de 2007 | 13h47

O percurso do Haiti rumo à estabilização ainda será longo e passa por uma mudança de cultura, segundo o embaixador do Brasil no país, Paulo Cordeiro de Andrade Pinto. Ele também rebateu críticas à atuação no território haitiano da força de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), comandada por militares brasileiros. De acordo com o diplomata, a maioria dos haitianos é favorável à presença da Minustah, nome oficial da missão, e representantes do governo do Haiti já manifestaram interesse em contar com apoio internacional até pelo menos 2011, ano do término do mandato do presidente René Préval. A atual missão termina no dia 15 deste mês, mesma data em que o Conselho de Segurança da ONU deve avaliar sua renovação. "(Préval) gostaria que a Minustah fosse a última das missões da ONU no Haiti. Já tivemos quatro no passado. Portanto, ela tem que ser bem feita, ela tem que estar no Haiti o tempo necessário", disse o embaixador em entrevista à Reuters, por telefone, na noite de segunda-feira. O embaixador foi duro ao rebater as críticas feitas em relatório pelo delegado da seção do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Aderson Bussinger, que esteve no Haiti. No documento, Bussinger afirma que a força da ONU é uma força de ocupação, não humanitária. "Nós estamos aqui por uma decisão das Nações Unidas que é legal e da qual participou o governo do Haiti", disse o embaixador. "A pessoa da OAB que escreveu isso tem que estudar um pouco mais de direito internacional." O diplomata também negou as acusações do delegado da OAB de que as tropas da Minustah validariam violações aos direitos humanos cometidas pela polícia haitiana. Andrade Pinto afirmou que a missão da ONU tem registrado os abusos cometidos pela polícia haitiana e que colaborou na criação de uma inspetoria-geral da polícia para investigar essas violações, classificadas pelo diplomata como "questões culturais". "É um país onde se resolviam as disputas no tiro e na faca", disse. "Nós já vimos aqui casos de mães que pediram ao policial haitiano para espancar o filho, porque ele era desobediente em casa", exemplificou. "Como mudar uma cultura centenária num só dia? O que o delegado da OAB se esqueceu de olhar foi a visão no tempo. Nós estamos combatendo dentro do possível os abusos." Novo mandato Andrade Pinto esteve na semana passada nos Estados Unidos reunido com autoridades de países que integram a missão de paz da ONU. No encontro, a renovação do mandato da Minustah foi discutida e o embaixador disse ter sentido um "entusiasmo" favorável à aprovação do texto que, segundo ele, já se encontra bem adiantado. De acordo com o diplomata, a resolução que pede a renovação do mandato da Minustah deve incluir mudanças no formato atual da missão, dando prioridade a novos "mecanismos que ajudem o desenvolvimento" do país, o mais pobre das Américas. As tropas da ONU chegaram ao Haiti em 2004, após a queda do então presidente Jean-Bertrand Aristide em meio a uma violenta revolta armada, que provocou a degradação na situação de segurança do país. "Comparado a quando eu cheguei aqui, isso (a segurança) melhorou muito", relatou o embaixador brasileiro, que está desde 2005 no Haiti e que reconheceu que os índices de criminalidade ainda são elevados.

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