Herdeiros do Clarín aceitam exame para esclarecer paternidade

Motivo do exame é comprovar se Felipe e Marcela Noble Herrera são crianças sequestradas durante a ditadura

Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo,

28 de dezembro de 2009 | 21h42

Felipe e Marcela Noble Herrera, os herdeiros do maior holding multimídia da Argentina, o Grupo Clarín, deverão acatar as ordens da Justiça para que os peritos coletem na terça-feira, 29, amostras para realizar um exame de DNA. O motivo do exame é o de comprovar se ambos são crianças sequestradas durante a ditadura militar (1976-83) e filhos de desaparecidos. Os dois herdeiros do Clarín haviam rechaçado a realização do exame desde 2002, quando veio à tona a denúncia de que Ernestina Herrera de Noble, a presidente do Grupo Clarín, teria adotado Felipe e Marcela de forma ilegal em 1976.

 

No entanto, em novembro, o Parlamento argentino aprovou a lei de exame compulsório de DNA, medida que tornou inviável a postura de rejeitar a realização do teste genético.

 

A organização de defesa das Avós da Praça de Mayo acusam Noble de encobrimento da identidade de Felipe e Marcela quando estes eram bebês. Segundo as avós, Noble também teria falsificado os documentos das crianças.

 

Noble alega que uma das crianças foi abandonada na porta de sua casa, enquanto que a outra foi entregue, meses depois, por uma mulher desconhecida que não podia ficar com o bebê.

 

A ordem para a realização do exame de DNA foi emitida pelo juiz federal Conrado Bergesio. No entanto, o juiz concordou com o pedido dos herdeiros do Clarín para fazer as análises de forma restringida. Os jovens exigiram que as amostras de DNA sejam cotejadas somente com duas famílias que fizeram o pedido na Justiça para comprovar se são seus netos desaparecidos.

 

Desta forma, não compararão as amostras genéticas com todas as famílias registradas no Banco de Dados Genético, que acumula amostras de DNA de grande parte das famílias com desaparecidos da ditadura.

 

Esta decisão foi criticada nesta segunda-feria, 28, pelas Avós da Praça de Mayo, que consideraram que a exclusividade do exame para as duas famílias fecha as possibilidades de investigação com outros parentes de desaparecidos.

 

CONFLITO

 

Analistas em Buenos Aires consideram que por trás da decisão na Justiça sobre o exame de DNA dos herdeiros do Clarín existem fortes pressões do governo da presidente Cristina Kirchner e do ex-presidente Néstor Kirchner (1976-83), que seriam beneficiados com um escândalo que desprestigiasse o principal grupo multimídia do país.

 

O casal Kirchner está em pé de guerra com o Clarín desde o início do ano passado. De lá para cá aplicou várias medidas para reduzir o poder do holding, entre elas a aprovação da lei de mídia (que restringe a atuação dos meios de comunicação). Além disso, tentou - sem resultados - anular a fusão da Multicanal e da Cablevisión, as duas maiores empresas de TV a cabo da Argentina, sob controle do Clarín. Em setembro, Kirchner afirmou que desejava colocar o Clarín "de joelhos".

 

Nos últimos meses o Grupo Clarín tornou-se uma das principais fontes de denúncias de corrupção do casal Kirchner

 

Se o exame de DNA comprovar que Felipe e Marcela são crianças sequestradas, Ernestina Herrera de Noble corre o risco de ir à prisão.

 

SEQUESTRADAS

 

As Avós da Praça de Mayo - organização que há 32 anos procura o paradeiro dos bebês desaparecidos - calculam que 500 crianças foram sequestradas pelos militares durante a ditadura. Destas, 100 crianças, atualmente adultos, foram identificadas e recuperadas por suas famílias biológicas. "Existem 400 crianças que ainda faltam. Muitas avós já faleceram nessa procura", afirma Estela De Carloto, líder das Avós.

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