Rodrigo Abd/AP
Rodrigo Abd/AP

Honduras escolhe presidente em clima de medo e repressão

Votação dá início a desfecho de uma das maiores crises políticas da região; Zelaya prega abstenção

Ruth Costas, enviada especial de O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2009 | 07h48

As eleições de hoje em Honduras devem dar início ao desfecho de uma das crises de maior repercussão na América Latina dos últimos anos. Mas isso não é exatamente uma boa notícia. Apesar de o governo de facto e de os candidatos presidenciais se esforçarem para dar ao evento um aspecto de "festa eleitoral", os hondurenhos vão às urnas em um ambiente de medo e repressão. Nas últimas semanas, TVs zelaystas tiveram seus sinais cortados e opositores foram perseguidos e ameaçados.

 

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A questão é que as eleições, hoje, parecem ser a única solução possível para a crise. Tanto que, segundo o instituto Gallup, a votação tem o apoio de 80% da população. Ainda assim, segundo analistas, ela é um péssimo exemplo para o restante da América Latina. Afinal, após destituir o presidente por meio de um processo iniciado no Congresso, mas concluído nos moldes de um golpe de Estado, no dia 28 de junho, o governo de facto resistiu cinco meses, ignorando sua suspensão da Organização dos Estados Americanos (OEA) e driblando as pressões internacionais.

Agora, 4,6 milhões de hondurenhos votarão para cumprir o calendário eleitoral estabelecido ainda antes do golpe e eleger um novo presidente, vice, deputados e autoridades municipais. Os que defendem a legitimidade da eleição alegam que ela já estava marcada antes de junho e os candidatos definidos - com ou sem a crise os resultados seriam os mesmos.

O presidente deposto, Manuel Zelaya, diz que a votação é ilegítima e pede para os hondurenhos não votarem. Há algumas semanas, seu candidato César Ham desistiu de concorrer, mas o partido esquerdista Unificação Democrática rompeu com Zelaya para continuar na corrida eleitoral.

Cisão

Além da divisão interna, a votação ampliou o racha no continente. De um lado, estão os países que a aceitam a eleição como a única solução possível para a crise hondurenha - EUA, Panamá, Peru, Colômbia e Costa Rica. De outro, estão os que a consideram a legitimação do golpe - Brasil, Venezuela, Argentina, Nicarágua e Paraguai.

A disposição da comunidade internacional em defender Zelaya, porém, esbarra na intenção do presidente deposto de realizar um referendo que servisse de apoio para a convocação de uma Constituinte.

Ao aproximar-se do presidente venezuelano, Hugo Chávez, Zelaya provocou setores militares, empresariais e políticos. E, da embaixada brasileira, onde está abrigado desde setembro, tentou conclamar seus aliados a um contragolpe - sem contar os apelos internacionais pela busca de uma solução pacífica.

Os candidatos favoritos nas eleições de hoje, Porfírio "Pepe" Lobo, do Partido Nacional, e Elvin Santos, ex-vice-presidente de Zelaya, do Partido Liberal, tentam se desvencilhar da briga entre o presidente de facto, Roberto Micheletti, e Zelaya.

Após a votação, Pepe promete buscar apoio até do Brasil, apesar das constantes críticas do governo de facto ao País. "O governo brasileiro não tem direito de pedir que Honduras não realize eleições, somos um povo soberano", disse ao Estado Martha Lorena Alvarado, vice-chanceler de Micheletti.

O apoio que realmente importa para os hondurenhos é o dos EUA, destino de 80% das exportações do país. Apesar de inicialmente terem condenado o golpe, com o fracasso das negociações entre Zelaya e Micheletti, os americanos estão dispostos a aceitar o resultado da votação se elas "seguirem os padrões internacionais".

Diante disso, o governo de facto, que chegou a declarar estado de exceção quando Zelaya voltou ao país, prontamente tomou medidas para aumentar a "transparência" da votação.

"A OEA e a ONU se recusaram a estar aqui, mas dezenas de outros representantes internacionais vieram para observar a votação", disse Denis Gómez, juiz do Tribunal Supremo Eleitoral. "Colocamos câmeras em 15 pontos de votação e no local onde será feita a apuração para que todos possam acompanhar o processo."

Zelaya vai "acompanhar a eleição" de dentro da embaixada brasileira. Na quarta-feira, o Congresso deverá votar sua restituição. Segundo fontes diplomáticas, porém, as chances de que ela seja aprovada "são próximas de zero". No dia 27 de janeiro, o mandato do presidente deposto terminará. O Brasil diz que não reconhecerá o novo presidente. O problema é que, a partir dessa data, ele será o único governo em Honduras.

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