Wilson Pedrosa/AE
Wilson Pedrosa/AE

Honduras suspende toque de recolher e abre aeroportos

Golpistas querem que trabalhadores voltem aos postos de trabalho; brasileiros não podem entrar na embaixada

estadao.com.br,

24 de setembro de 2009 | 07h47

O governo de facto de Honduras anunciou a suspensão do toque de recolher que está em vigor no país há três dias a partir da manhã desta quinta-feira, 24. Os golpistas pediram para que funcionários públicos e privados voltassem aos seus postos de trabalho e afirmou que as Forças Armadas e a polícia garantiriam "a ordem e a tranquilidade". Os aeroportos também foram abertos, apesar de os voos internacionais permanecerem suspensos.

 

Abrigado na embaixada brasileira desde segunda-feira, quando retornou ao país secretamente para tentar retomar o poder, o presidente eleito Manuel Zelaya declarou que ainda espera conversar "pessoalmente" com o presidente de facto Roberto Micheletti para encontrar uma solução definitiva para a crise. O retorno de Zelaya reacendeu a crise e pode aprofundar ainda mais os prejuízos financeiros num país que é um dos mais pobres do continente e cuja economia é completamente dependente da ajuda de organizações internacionais. 

 

Veja também:

linkRepórter do 'Estado' relata tensão para chegar a Honduras

linkChávez admite que 'despistou' autoridades sobre retorno de Zelaya

linkEntrevista: Zelaya diz que espera solução pacífica para crise

lista Ficha técnica: Honduras, um país pobre e dependente dos EUA

lista Eleito pela direita, Zelaya fez governo à esquerda em Honduras

especialCronologia do golpe de Estado em Honduras

especialEntenda a origem da crise política em Honduras

mais imagens Veja galeria de imagens do retorno

som Eldorado: Ouça comentário de Lula sobre crise política

video TV Estadão: Jornalistas do 'Estado' discutem impasse em Honduras

 

Temendo o desabastecimento, os hondurenhos aproveitaram a suspensão temporária do toque de recolher na quarta-feira e lotaram os supermercados para estocar produtos. A preocupação não é infundada, já que muitos caminhões com alimentos foram impedidos de entrar no país porque as fronteiras estão fechadas. Grupos que defendem a volta ao poder de Zelaya saquearam na madrugada de quarta-feira diversos supermercados, agências bancárias e lojas em bairros da periferia de Tegucigalpa, aumentando o caos e a insegurança no país. Forças militares usaram bombas de gás lacrimogêneo e canhões d'água para conter nova manifestação em apoio ao líder deposto.

 

O diretor de Aeronáutica Civil de Honduras, Alfredo San Martín, confirmou à "Rádio América" que, "com a suspensão do toque de recolher, se normaliza" as operações nos quatro aeroportos internacionais do país, mas, "momentaneamente, só para os voos locais". San Martín disse confiar em que serão retomados "o mais em breve possível" os voos internacionais, uma decisão que depende "da Presidência da República".

 

A Organização dos Estados Americanos (OEA) e a União Europeia (UE) informaram na quarta-feira que os embaixadores latino-americanos e europeus que abandonaram Tegucigalpa voltarão ao país para ajudar a promover o diálogo e evitar uma explosão social. Segundo o chanceler espanhol, Miguel Angel Moratinos, o importante agora é evitar a violação da embaixada brasileira, onde Zelaya está abrigado desde que voltou ao país, na segunda. "A situação é de enorme gravidade e queremos enviar uma mensagem muito clara para as autoridades de facto de que a comunidade internacional estará ao lado do governo do Brasil, da embaixada, da proteção, da segurança e da integridade", afirmou.

 

Embaixada cercada

 

Cercada por uma barreira do Exército e da polícia, a Embaixada do Brasil em Honduras foi proibida de receber cidadãos brasileiros pelas autoridades do governo de facto. Mesmo com passaportes à mão, parentes de funcionários e jornalistas brasileiros tiveram o passe negado, em última instância, pelo comissário de polícia Rosário Mejías, que comanda o cerco ao prédio. "Esse tipo de situação só ocorre quando há um governo de facto e arbitrário", resumiu o encarregado de negócios da embaixada, ministro Francisco Catunda Resende. "Essa é uma falta diplomática grave. Um verdadeiro absurdo", disse por telefone ao Estado.

 

Desde a manhã de segunda-feira, Catunda tornou-se anfitrião do presidente deposto Manuel Zelaya, que voltou a Honduras secretamente. O diplomata igualmente tornou-se uma espécie de refém de um episódio político delicado, que colocou o Brasil no centro da disputa entre Zelaya e o presidente de facto, Roberto Micheletti. Sua instrução é a de não deixar o prédio e não interferir em reuniões ou conversas que Zelaya possa manter.

 

Segundo o diplomata, na segunda-feira, mulher de Zelaya, Xiomara, procurou-o pedindo para conversar. Catunda a recebeu, mas se surpreendeu quando Xiomara disse que Zelaya esperava em um carro na frente do prédio e queria saber se o governo brasileiro permitiria que ele ficasse na embaixada, sob sua proteção.

 

O consentimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que estava voando para os EUA, demorou apenas 10 minutos. O carro de Zelaya entrou pela garagem da embaixada. Ele saiu carregando uma mala. Vinha apenas com a mulher e se instalou no gabinete do embaixador Brian Fraser Neele, que estava de férias na época do golpe e permaneceu no País, por ordem do Itamaraty.

 

Partidários de Zelaya escalaram muros da vizinhança e ingressaram no prédio. Na terça-feira, a embaixada abrigava 313 pessoas. Por recomendação do chanceler Celso Amorim, Catunda pediu a Zelaya para reduzir o número de partidários na embaixada. O próprio Catunda dispensou 8 dos 12 funcionários, que foram retirados por uma operação da Embaixada dos Estados Unidos. Desde então, a representação brasileira abriga cerca de 60 pessoas, incluindo Zelaya e Xiomara e mais três funcionários da embaixada. Catunda ainda teme uma invasão do prédio. "São boatos constantes."

 

Segundo o encarregado de negócios, a embaixada não se tornou um ambiente caótico. Disciplinados, os correligionários de Zelaya encarregaram-se da limpeza do prédio e da distribuição de alimentos e de água trazidos por organizações não-governamentais que apoiam o retorno de Zelaya à presidência, entre elas a Comissão de Parentes de Desaparecidos (Cofad).

 

Mas, com exceção do casal Zelaya, todos sofrem com a falta de roupas. O próprio Catunda afirmou que vestia o mesmo terno há três dias e sua família não fora autorizada pela polícia a entregar-lhe peças limpas, toalhas e artigos de limpeza pessoal. "Faço o que posso. Pelo menos, tenho escova e pasta de dente."

 

(Com Denise Chrispim Marin, enviada especial de O Estado de S. Paulo)

 

Texto atualizado às 11h

Tudo o que sabemos sobre:
Honduras

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.