Hugo Chávez reabre discussão sobre terceiro mandato

Venezuelano diz que não convocará novo referendo para reeleição indefinida, mas que seu partido pode fazê-lo

Agências internacionais,

25 de novembro de 2008 | 07h45

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, disse na noite de segunda-feira, 24, que o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), fundado por ele em 2006, poderia promover uma nova reforma para a Constituição do país, permitindo sua reeleição indefinida. A Carta Magna Venezuela permite que os presidentes governem durante dois mandatos. Com isso, Chávez deveria deixar o cargo em 2013.   Veja também: Vitória serve de teste para rivais de Chávez Veja galeria de imagens da votação na Venezuela  Enviada especial conta clima das eleições  Cronologia do processo eleitoral venezuelano    Chávez, que chegou ao poder em 1999, não conseguiu aprovar em referendo a proposta de ampla modificação da Constituição que dava mais poderes ao presidente e garantia a reeleição indefinida. Na eleição regional deste fim de semana, Chávez mais uma vez conquistou a maioria dos Estados, recuperando três regiões cujos governadores haviam rompido com o chavismo e vencendo em número de votos. Mas, mesmo assim, saiu enfraquecido da disputa, dizem analistas. A divulgação da maior parte dos resultados só terminou na manhã de segunda-feira, porque a participação recorde (65,45%) levou o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) a prorrogar o tempo de votação. O PSUV venceu em 17 Estados.   O militar retirado já afirmou em múltiplas ocasiões em seus dez anos de governo que governará até 2021. Minutos antes, na mesma entrevista coletiva concedida na segunda, Chávez afirmou que não voltaria a propor a reforma, que deve ser submetida ao voto popular. "Restam para mim, a partir do próximo dia 2 de fevereiro, quatro anos de governo. Se Deus quiser e a Virgem, e se tiver boa saúde e todas as outras condições e considerações, vou acelerar o passo nestes quatro anos para cumprir o projeto socialista", afirmou. "Se o PSUV (...) e uma parte importante dos que me seguem querem propor, isso é coisa deles, teriam que recoletar assinaturas, levá-lo à Assembléia Nacional e logo ir a referendo".   Chávez foi reeleito em 2006, mas sofreu sua primeira derrota em dezembro de 2007, quando tentou aprovar sua polêmica reforma constitucional. A proposta daria a possibilidade de Chávez se candidatar ao cargo novamente em 2012, estendida o mandato presidencial de 6 para 7 anos e ampliava seus poderes em diversas questões, como nomear autoridades regionais e ter o controle das reservas financeiras internacionais do país.   No último domingo, a oposição venceu em Estados populosos e economicamente importantes, conseguindo uma grande oportunidade para lutar por uma divisão de poder mais eqüitativa na Venezuela. Nos últimos meses, o presidente venezuelano percorreu o país para fazer campanha pelos candidatos do PSUV. A estratégia era transformar as eleições regionais em mais um plebiscito sobre seu governo e compensar as debilidades dos candidatos locais de seu partido vinculando-os à figura de Chávez.   Segundo analistas, o avanço da oposição dificulta os planos de Chávez de aprofundar sua revolução e aprovar, por meio de uma emenda constitucional, o projeto que permitiria reeleições ilimitadas para presidente. "Foi a resistência a tal projeto que fez com que a reforma constitucional do presidente fosse rejeitada no referendo de dezembro", lembra o cientista político José Argenis Araque, da Universidade dos Andes. "Se Chávez somar a isso o aumento do peso político da oposição e a crise econômica agravada pelos baixos preços do petróleo, certamente adiará uma nova ofensiva para aprovar as reeleições ilimitadas."   "Não há como negar que o apoio a Chávez ainda é grande na Venezuela, apesar do descontentamento causado por problemas como inflação, violência, desabastecimento de produtos básicos e o que um número crescente de venezuelanos vê como excesso de autoritarismo do presidente", diz Araque. Até porque, em Estados como Carabobo e Táchira, por exemplo. os opositores venceram por estreita margem.   Vitória da oposição   A oposição levou a prefeitura das duas maiores cidades, Caracas e Maracaibo, e mais 5 Estados de peso: Zulia, que produz 80% do petróleo venezuelano, Carabobo, o principal pólo industrial da Venezuela, Miranda, onde está Caracas, Táchira, na fronteira com a Colômbia, e Nueva Esparta. Juntas, essas regiões representam quase 45% da população venezuelana e 70% da atividade econômica. Nas últimas eleições (2002), os opositores haviam ganhado em apenas dois Estados (Zulia e Nova Esparta).   O presidente não reconheceu que a oposição tenha avançado. "Foi uma grande vitória da revolução bolivariana", declarou e, entrevista no Palácio de Miraflores, após dizer que reconhecia apenas "vitórias limitadas, parciais, de alguns líderes e movimentos opositores". Ele disse que a dissidência chavista virou "pó cósmico" nas eleições.   Chávez destacou a participação recorde de 65% e disse que os candidatos do PSUV receberam 5,5 milhões de votos e a oposição, 4,2 milhões. "Recebemos mais votos do que no referendo de dezembro (sobre a reforma constitucional) e ganhamos em 80% das prefeituras." Chávez também acusou os governadores eleitos de Carabobo e Táchira e duas TVs de "violar a lei" ao anunciar o resultado da disputa nesses Estados antes do CNE.   A oposição, porém, ficou eufórica com a conquista dos cinco Estados e mesmo o vice-presidente do PSUV, Alberto Muller Rojas, apesar de não admitir um crescimento "significativo dos adversários", não descartou a possibilidade de que o partido chavista tenha de realizar um processo de "revisão, retificação e relançamento".   Foram poucos os que não reconheceram os resultados. O candidato Júlio César Reyes, dissidente do chavismo, anunciou que pedirá a impugnação por fraude dos resultados da eleição para governador de Barinas, que deram a vitória a Adán Chávez, irmão mais velho do presidente venezuelano. De acordo com resultados parciais, Adán obteve 49,63% dos votos e Reyes, 44,58%.   Novas estatizações   Chávez sugeriu que seu governo pensa na possibilidade de estatizar mais algumas empresas. O presidente afirmou que seu governo concluirá os processos de estatização em andamento, inclusive o da Sidor, maior siderúrgica da Venezuela. No entanto, ele não forneceu detalhes sobre quais empresas ou setores seriam os próximos a passar para o controle do Estado.   O líder esquerdista venezuelano iniciou no ano passado uma série de estatizações durante a qual o governo tornou-se acionista majoritário de projetos estratégicos de exploração de petróleo e assumiu o controle da maior companhia telefônica, do setor de energia elétrica e de toda a indústria cimenteira do país. Este ano, o governo também decidiu estatizar o Banco de Venezuela. A instituição pertencia ao Banco Santander, da Espanha, que já havia manifestado a intenção de vender sua participação.   Chávez também afirmou que levará adiante seus planos socialistas. "O que temos agora é o terceiro estágio: a consolidação do socialismo", afirmou. "E ninguém terá força para nos desviar desse caminho."   (Com Ruth Costas, enviada especial de O Estado de S. Paulo)   Matéria atualizada às 11h40.

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